segunda-feira, 21 de agosto de 2017

PARTIU LEWIS, UM DOS REIS DO NONSENSE


Simanca.

KIM JONG-UN PEDE O APOIO DA AMÉRICA LATINA


Petar Pismestrovic. (Áustria).
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AQUI.

A ATITUDE DE TRUMP E OS FUNDAMENTOS DA SOCIEDADE AMERICANA


"Não foi como ele desejaria, mas aconteceu. Sete meses depois de instalar na Casa Branca uma presidência disfuncional, errática, tão combativa quanto combatida, Donald Trump conseguiu, pela primeira vez, que partidários e adversários chegassem a um consenso nacional: esta última semana pode ser considerada a pior e mais neurastênica desde a sua instalação na Casa Branca.

David Gergen, o comedido conselheiro político considerado insubstituível pelos quatro presidentes a que serviu, deu um veredito severo: a instabilidade emocional de Trump precisa começar a ser questionada, inclusive por profissionais, pois arrisca minar os fundamentos da sociedade americana.

O ex-vice-presidente democrata Al Gore, derrotado por George Bush na contestada eleição de 2000, foi mais direto. Perguntado sobre qual conselho daria a Trump diante das erupções da semana, respondeu com uma só palavra: “Demissionar”. Há quem prefira aguardar o resultado do cipoal de investigações em curso no Congresso e no FBI para saber se abrem caminho a um eventual processo de impeachment. Outra, ainda, é a previsão de Tony Schwartz, o ghostwriter que conviveu 18 meses com o personagem enquanto escrevia “A arte da negociação”, assinado por Trump. Ele está convencido de que o presidente encontrará uma forma de renunciar num período próximo: “Se ele se submeter a um eventual processo de impeachment ou continuar a ser humilhado na Casa Branca”, garante Schwartz, “encontrará uma maneira de fazer o que fez a vida toda: revestir de ganho uma perda. Ao renunciar, ele vai declarar vitória”. (No caso, vitória contra o establishment de Washington que vilipendiara ao longo da campanha eleitoral).

Como amplamente noticiado, a origem de tudo foi a falência múltipla do presidente diante da ação de supremacistas brancos que provocaram um espetáculo de terror nazista, antissemita e racista em Charlottesville, Virgínia, no sábado anterior. Ao não denunciar de imediato a Ku Klux Klan, os neonazistas e outros grupos de ideologia racista que desfilaram armados cuspindo ódio e preconceito, Trump vacilou. Não percebeu ser aquele um dos momentos em que o país inteiro aguarda a palavra do presidente, quando valores nacionais estão em jogo, e palavras contam.

Nenhuma tentativa posterior de consertar o vazio inicial teve efeito. A sensação de que os Estados Unidos estavam órfãos de um chefe da nação em sintonia com a história e o país que governa ficou escancarada.

Pela primeira vez, as mais altas patentes militares do país acharam necessário posicionar-se de forma contundente e pública contra o racismo. Um a um, os chefes do Estado-Maior do Exército, da Marinha, dos Fuzileiros Navais, da Guarda Nacional e da Força Aérea deixaram claro que as manifestações de ódio ocorridas não podiam ser igualmente distribuídas entre nacionalistas brancos e opositores antifascistas, como pretendeu o comandante em chefe.

Costuma-se dizer que a Presidência da maior potência mundial acaba amadurecendo o seu ocupante devido ao peso histórico e à responsabilidade do cargo. Só que o atual ocupante do cargo parece estar invertendo a equação: a Presidência sumiu. Só tem Donald Trump, que ocupa assento na Casa Branca e basta a si mesmo. Nem a demissão de Steve Bannon, seu temido e detestado conselheiro estratégico ligado à extrema-direita nacionalista, pode aliviar as tensões mais cruas. Mas não resolverá a equação Trump.

Para ontem, em Boston, estava prevista nova marcha de supremacistas brancos “em defesa da liberdade de expressão”. Ao contrário de Charlottesville, com proibição expressa de levarem mochilas, bastões e armas de fogo. E sem homenagens a algum herói confederado (leia-se, a favor da escravidão) da Guerra Civil ocorrida três séculos atrás, mas que até hoje dilacera a nação.

Desde os confrontos do fim de semana anterior centrados no destino a ser dado a uma estátua do general confederado Robert E. Lee, autoridades e ativistas trataram de se livrar de marcos semelhantes em outras cidades e estados — seja cobrindo monumentos com plástico, seja derrubando-os a marteladas e cordas como se fossem a estátua de Saddam Hussein, seja removendo os símbolos do passado escravagista para algum museu ou localidade não declarada.

Um interessante artigo de Paul M.M. Cooper, estudioso de ruínas históricas e memória publicado na revista “Foreign Policy” aborda este dilema. Como nações de passado violento equilibram a pressão pela remoção de monumentos que honram o repreensível, e a sua preservação como pontos de memória?

Cada caso tem raízes e soluções diferentes, claro, mas o autor cita, entre outros, a solução encontrada pela Hungria, que se viu às voltas com centenas de pantagruélicos monumentos à glória comunista após a derrocada do bloco soviético em 1989/90. Ao invés de atenderem à pressão popular para que as odiadas marcas em pedra e bronze de 40 anos de opressão virassem pó, os líderes do novo regime democrático decidiram transferir para um mesmo local toda a pesada tralha espalhada pela cidade — estátuas de Stalin, Lênin, Marx, líderes comunistas húngaros, soldados em poses heroicas, monumentos ao trabalhador bolchevique.

Assim nasceu o Memento Park de Budapeste, visitado por milhares de turistas estrangeiros e nacionais, que se divertem comprando suvenires comunistas da lojinha Bandeira Vermelha, mas também aprendem a história por trás daquelas estátuas através de brochuras, vídeos, exposições e eventos culturais. Nada ali é glorificado.

A Alemanha deu uma contextualização semelhante a seu passado, ainda mais complexa e elaborada, mas, como aponta o autor, isso só é factível quando a comunidade concorda com a nova leitura a ser dada à História, por exigir uma compreensão democrática da memória.
Difícil prever se isso é possível no contexto atual de extrema polarização da vida americana."






(Da jornalista Dorrit Harazim, post intitulado "Estátuas vivas e mortas", publicado no jornal O Globo, edição de ontem, 20 - aqui.


Enquanto isso, cartunistas de todo o mundo se mantêm implacáveis no combate ao racismo. A ironia acima, de autoria de Ed Wexler, fala tão incisivamente quanto um editorial). 

domingo, 20 de agosto de 2017

CARTUM DA GUERRA INTERNA

                               "O norte e o sul estão em guerra".
Patrick Chappatte.

OLD CARTOON


Bernard Kliban. (EUA, 1935-1990).
Em algum lugar no passado.

PACOTE FISCAL: TAXA (PARCIAL) DE SACRIFÍCIO


As incoerências do ajuste fiscal, segundo a STN

Por Luis Nassif

Trabalho da Comissão de Representantes da STN (Secretaria do Tesouro Nacional) levanta as principais incoerências do pacote fiscal do governo. Saliente-se que partiu da própria STN a reação contra as estripulias do ex-Secretário Arno Agustin.
Mesmo assim, reflete a visão de uma parte da tecnocracia do Estado, aliás tecnicamente bastante boa. 
O trabalho obviamente não contempla argumentos contrários.
Na atual crise de endividamento, por exemplo, a renegociação das dívidas de Estados e Municípios é essencial para impedir a paralisação total da sua operação. Da mesma maneira, os estragos das políticas econômicas sobre a economia e a criação de um gigantesco endividamento circular exigem medidas enérgicas para romper o círculo de endividamento.
Pode-se argumentar, também, que, ao contrário das carreiras civis, a carreira militar não permite especializações para servir no setor privado.
O trabalho foge, além disso, da parte mais relevante do corte: aquela que afeta as políticas sociais.
São vários os argumentos. Relevante, no trabalho, é a crítica à maneira açodada com que o governo saiu cortando a torto e a direito, sem planejamento maior.
Coerência e incoerência
Um projeto fiscal coerente deveria contemplar os seguintes aspectos:
  • Avaliar TODAS as despesas, inclusive as financeiras
  • Avaliar despesas de pessoal e previdenciárias.
  • Avaliar as renúncias fiscais e tributação.
  • Avaliar despesas com subsídios.
  • Avaliar despesas com custeio.
No entanto, as propostas aprovadas e discutidas primam pela incoerência:
  • Privilegia segmentos e setores.
  • Não envolve todos os poderes.
  • Foca nos ajustes de curto prazo, desajustando o equilíbrio de longo prazo.
  • Não avalia a qualidade do gasto.
O trabalho detalha, com exemplos, o significado dessa incoerência que leva a um desequilíbrio sustentado. 
Incoerência 1 - ajuste fiscal cortando investimentos
Segundo estudos de Orair, premiado no XXI Prêmio do Tesouro Nacional, os multiplicadores fiscais devem ser levados em conta na definição dos ajustes. Especialmente aqueles ligados a Investimentos, Pessoal e Benefícios Sociais.
Como explicar, então, que em momento de queda profunda da arrecadação o PAC tenha sido praticamente eliminado?
Incoerência 2 - restringir a reforma da previdência para o RGPS (Regime Geral da Previdência Social) e o RPPS (Regime Próprio da Previdência Social) que inclui apenas servidores civis.
Segundo o trabalho, são mais de 674 mil servidores civis e cerca de 300 mil militares aposentados. Os civis contribuem com R$ 30,7 bilhões e recebem R$ 73,7 bilhões. Os militares contribuem com R$ 3,0 bilhões e recebem R$ 37 milhões. Segundo o trabalho, os civis passaram por duas reformas recentes, em 2003 e 2013 e, com a Funpresp (Fundo de Previdência do Servidor Público) já se tem uma solução de longo prazo.
Incoerência 3 - propor reforma da previdência rural e urbana e manter medidas que desoneram produtores rurais.
O RefisRural (MP 793/2017) gerará perdas de pelo menos R$ 7,5 bilhões. A desoneração da folha gerou prejuízos de R$ 94,5 bilhões nos últimos cinco anos. E o Executivo pretende que se gaste mais R$ 12,55 bilhões em 2018 apenas com essa rubrica.
Incoerência 4 - as liberações recordes de emendas parlamentares.
De janeiro a maio de 2017, liberaram-se R$ 102,5 milhões de emendas. De junho a agosto de 2016, R$ 860,1 milhões. De junho a 11 de agosto de 2017, no ato da compra de apoio parlamentar, as liberações atingiram R$ 4,3 bilhões.
Incoerência 5 - Refis e regras de repatriação com multas irrelevantes.
Houve descontos de até 99% sobre multas e juros, derrubando as previsões de arrecadação de R$ 13,3 bilhões para R$ 500 milhões. Além disso, a expectativa de novos parcelamentos influencia negativamente a arrecadação tributária.
Incoerência 6 - renegociação de dívidas de Estados e Municípios sem contrapartidas.
A União deixará de receber R$ 37 bilhões até 2020 em decorrência da renegociação.
Incoerência 7 - as despesas com pessoal concentradas no Executivo.
Segundo o estudo, no Executivo o auxílio moradia se concentra no Ministério das Relações Exteriores e da Defesa. As propostas do governo deixam de fora o Judiciário e o Ministério Público da União.
Segundo o estudo, cada servidor do Executivo custa R$ 9.940 o ativo e R$ 7.620 o inativo, contra R$ 17.246 o ativo e R$ 22.245 o inativo do Judiciário.
Uma medida de reestruturação das carreiras de Estado, reduzindo o salário inicial e aumentando a quantidade de níveis de progressão, permitiria economia de R$ 18,6 bilhões em 5 anos. Os técnicos acusam o estudo de não definir as carreiras que seriam afetadas.  -  (Fonte: AQUI).

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Sugestão de leitura: "Os sábios tecnocratas da equipe econômica de Temer", por Fernando Nogueira da Costa - AQUI.

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a) Num momento de grave fragilidade da economia e do governo, incoerências pululam. (Diz-se que, dos vinte bilhões de Reais de incremento do déficit 2017, um bilhão estaria 'disponível' para emendas parlamentares...);

b) No 'modelo Brasil', prevalece a tese da autonomia orçamentária e administrativa dos poderes. Ao Executivo compete cuidar de suas prioridades e contingenciamentos 'particulares', sem dar pitacos nos demais. É, queira-se ou não, o presidencialismo capenga: não detém o poder orçamentário, mas tem, p. ex., de 'reportar-se' às AGÊNCIAS DE RISCO para responder pelo todo e pedir a 'compreensão' e o indispensável nihil obstat relativamente às medidas pretendidas...). O Legislativo gasta à vontade, prenhe de benesses até agora incólumes (as verbas de gabinete e o 'custeio geral' dispensam comentários; conselheiros de tribunais de contas, louvados no efeito cascata, recebem montantes estratosféricos - há relato sobre 'auferição' da bolada de 1,6 milhão para cada um, a título de auxílio-moradia retroativo), o Judiciário reina absoluto, secundado pelo MP. Torce-se para que a presidente do STF e CNJ lidere a indispensável reação e faça prevalecer a diretriz (desrespeitada) de que trata o artigo 37 da Constituição, o que alcançaria o MP, face ao já mencionado efeito cascata (cumpre lembrar que a questão auxílio-moradia pende de decisão do STF sobre sua legalidade; que a ministra-presidente traga-o para a berlinda); 

(Nota: Em 2016, comissão do Senado elaborou 3 projetos visando à moralização dos salários, presente o artigo 37 da Constituição, conferindo aos penduricalhos e assemelhados o destino que merecem. Os projetos continuam onde sempre estiveram: afogados no ostracismo); 

d) Tema absolutamente intocável: auditoria da dívida pública.

DOMINGO É DIA DE ANÉSIA

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Will Leite.

LAZER MACABRO


Rayma Suprani.

sábado, 19 de agosto de 2017

COMO A RIQUEZA VAI DESTRUIR A DEMOCRACIA


"Extra Classe – O senhor estuda a concentração de riqueza nas mãos de poucas pessoas há pelo menos dez anos. A que conclusões chegou nesse período?
Antonio Davi Cattani – Meu argumento é que a concentração de renda com a existência de multimilionários é nefasta para a economia e para a democracia. Para a democracia parece evidente, gera corrupção, tráfico de influência. Mas na economia persiste uma discussão sobre a importância de se acumular riqueza antes de distribuí-la. Em outras palavras, a tese de que a concentração de renda criaria mecanismos de maior eficiência econômica para investimentos produtivos que gerassem mais empregos e oportunidades. Bem, dez anos depois posso afirmar que isso é uma falácia. Uma mentira deslavada. Um discurso dos ricos, que querem apenas justificar seus rendimentos e seus privilégios.
EC – Não se trata de um fenômeno do capitalismo brasileiro?
Cattani – Não, de jeito nenhum. Em nenhum capitalismo, em nenhum lugar, a acumulação volta para a sociedade. Em outro livro (A Riqueza Desmistificada, 2007) eu analiso a situação dos Estados Unidos, onde há uma redução de impostos para os mais ricos, desde o primeiro governo de Bill Clinton (a partir de 1993) até o Barak Obama. Mostro ali que, ao contrário do que justificam os teóricos da concentração, não há mais investimentos, mas apenas mais especulação, o que gera instabilidade econômica e mais consumo de produtos de alto luxo, iates, jatinhos, viagens ao espaço. Os podres de rico têm tanto dinheiro que em determinado momento surge a seguinte questão: investir mais para quê? Para se incomodar contratando mais gente? Se eu posso ganhar dinheiro, muito dinheiro, com isenções, com privilégios fiscais? No caso brasileiro, que você menciona, o agravante é que a concentração de riqueza permite comprar, entre outras coisas, o próprio Congresso. Dou o exemplo da JBS, que investiu milhões de reais, centenas de milhões de reais, em todos os partidos, por uma razão bem objetiva: defender seus privilégios. Os bancos, a indústria farmacêutica, o ensino particular, o agronegócio, todos usam essa estratégia. Isso é um atentado à democracia.
EC – Qual a relação possível dessa concentração de riqueza com a nossa atual crise política?
Cattani – Total. O golpe do ano passado foi todo financiado por essa concentração, por esse poder econômico nas mãos de poucos. Não estamos falando do empresariado em geral, há empresários sérios e comprometidos com resultados, que cumprem as leis, mas do grande capital, dos grandes conglomerados que têm um controle estrito sobre a política e também sobre a mídia.
EC – O que isso tem a ver, por exemplo, com a condenação do ex-presidente Lula? Há alguma relação?
Cattani – Sim e não. Por um lado, a concepção da chamada República de Curitiba segue esse padrão concentrador: um pessoal forjado nos Estados Unidos, com uma mentalidade antipopular e elitista, cuja visibilidade se deve ao apoio dos grandes grupos econômicos, que contamina principalmente a classe média. Dou um exemplo: a indústria farmacêutica não suportou a ideia de uma medicina preventiva, desenvolvida nos governos do PT. O ideal, para esse segmento, é deixar as pessoas adoecerem para vender remédios. Outro exemplo: o ingresso de alunos das classes mais baixas na universidade pública, que provocou indignação em muitas áreas específicas. Isso evidentemente está associado com concentração de renda e espírito elitista. Mas não é uma exclusividade brasileira, a concentração de renda ocorre em todo o mundo, até na Suécia – que era um modelo clássico de distribuição – o que não remete à criminalização do ex-presidente Lula. De modo geral, a concentração está se acentuando nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra.
EC – Desde quando?
Cattani – Desde os anos de 1980. Basicamente devido à mobilidade do capital financeiro obtida a partir da tecnologia da informação. O poder desse pessoal, o poder desses podres de ricos, só aumentou. Eles compram, corrompem, criam leis, privilégios, isenções. E quando tudo dá errado, dão um golpe de Estado ou, se não for possível, mandam o dinheiro para fora e o reintegram à economia quando as coisas estiverem melhores. Essa história de que os investidores estrangeiros estão voltando ao país, por exemplo, é mais uma balela. É tudo capital brasileiro, nacional, capital que está lá fora, que foi obtido de forma ilegal, que está sendo repatriado.
EC – Por que tão poucos pesquisadores estudam a riqueza na academia?
Cattani – Porque é muito mais fácil trabalhar com a pobreza, com os pobres. Entrevistar um papeleiro, um operário, um gerente de fábrica, é tranquilo. Agora, vai tentar entrevistar um grande empresário, vai perguntar ao (Jorge) Gerdau por que ele levou a sede do seu grupo econômico para Amsterdã (Holanda). Primeiro, você não chega perto dele nem com uma agenda especial, de pesquisador. Depois, a informação essencial é protegida, não se torna pública de jeito nenhum. Eu escrevi um artigo sobre fraudes corporativas e apropriação de riqueza que não consegui publicar no Brasil, apenas no México (na revista Convergência), em 2009. Isso que tinha apenas informações públicas.
EC – Qual é a metodologia dos muito ricos para ficarem cada vez mais ricos?Cattani – Primeiro, os muito ricos se protegem mutuamente. Ou seja, transparência (de informações) só vale mesmo para o Estado, para os governos. Nas empresas deles, não mesmo. Segundo: fomentam ideologicamente a ideia de meritocracia, a ideia de que a pobreza é um problema, e a riqueza, em contraponto, é solução. É claro que não é a solução, a concentração da riqueza agrava o problema da desigualdade. Isso é óbvio. Mas essa falsa meritocracia acaba prevalecendo, as pessoas acham que os ricos são, ou ficaram ricos, porque são competentes. Não é verdade, tirando as exceções de praxe. A maioria dos grandes empresários, por sinal, frauda as regras da concorrência, do livre mercado, quando fazem aquisições, quando compram os concorrentes. Para os grandes empreendimentos, essas regras simplesmente não existem. Outra conclusão possível é de que a riqueza não é abstrata, não está por trás de uma marca, de um conglomerado. Esses impérios são comandados por pessoas, por pessoas físicas, o dinheiro vai para a conta dessas pessoas. É a personalização da riqueza, com nome, endereço e conta bancária. Os privilégios, portanto, estão tanto no nível corporativo quanto no nível pessoal. Uso um exemplo bem simples e clássico para mostrar isso: quem ganha um salário, digamos, de R$ 5 mil aqui, paga imposto de renda compulsoriamente numa alíquota de quase 30%. Já o dono de uma empresa, pessoa física, que ganha R$ 5 milhões de pró-labore, não paga nada, nem um centavo, porque essa renda é lançada como lucro e dividendo – que é isento na nossa legislação. Proporcionalmente, essa pessoa física deveria pagar cerca de R$ 1,4 milhão de imposto de renda sobre esse montante. Mas não paga porque temos uma legislação, criada por um lobby empresarial, determinando essa isenção. As pessoas acham que o fulano é rico porque é competente. Mentira: é rico porque compra privilégios.
EC – Que dados o senhor usa em suas pesquisas, diante da dificuldade de se obter informações confiáveis do mundo corporativo?
Cattani – Temos de usar apenas dados públicos, pois não há outra maneira. Temos que usar o que aparece por aí, reportagens, balanços, estudos. Algumas ONGs fazem trabalhos ótimos de investigação. Um desses levantamentos, por exemplo, conseguiu identificar evasão de divisas por grandes empresas exportadoras: as companhias que comercializam commodities vendem oficialmente por um preço abaixo da cotação internacional e recebem a diferença, digamos 20%, 30% do valor de face, diretamente em contas no exterior. Exportam com subfaturamento e recebem a diferença diretamente em paraísos fiscais.
EC – Isso não é lavagem de dinheiro?
Cattani – Sim. E corrupção também, porque é uma operação que precisa ser camuflada de alguma forma.
EC – Operações como Lava Jato e Zelotes podem ajudar a moralizar esse ambiente empresarial?
Cattani – Essa é uma outra questão que precisamos desmistificar: qual foi, por exemplo, o rombo causado na Petrobras apurado pela operação Lava Jato? R$ 10 bilhões? Mas qual o montante de sonegação das grandes empresas brasileiras, a cada ano? É da ordem de R$ 300 bilhões, segundo o sindicato dos auditores fiscais. Talvez R$ 500 bilhões, não se sabe ao certo. Por ano. Na fusão do Itaú com o Unibanco, uma taxação superior a R$ 25 bilhões acabou de ser anistiada pelo Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) porque os conselheiros consideraram que não houve ganho de capital na transação. O Carf é o mesmo órgão onde foram registrados inúmeros casos de compra de votos, que envolvem, entre outros, grupos de mídia como RBS e Globo. É claro que isso nunca vai ser manchete porque eles, incluindo a mídia, se protegem. É um quebra-cabeças. Por que a Gerdau, que já mencionei aqui, foi para Amsterdã? Porque é um paraíso fiscal e, dessa forma, se resolve a questão sucessória. Aqui o imposto de transmissão patrimonial varia de 6% a 8%. Baixíssimo. Nos Estados Unidos, é de 40%. No Japão chega a quase 60%. Em Amsterdã é zero. Ou seja, nossos super-ricos não querem nem pagar o mínimo que a legislação do Brasil exige na transmissão de poder e de capital para os sucessores. Isso é lavagem de dinheiro, uma forma de manutenção da riqueza. É como se houvesse um mundo paralelo ao nosso, do qual nem chegamos perto. O problema é que esse mundo está acabando conosco.
EC – Além das cifras bilionárias, esse mundo paralelo envolve mais o quê?
Cattani – Impunidade, principalmente. E problemas de ordem moral, pois historicamente esse pessoal se safa em todos os processos, sejam administrativos, sejam criminais. Problemas ambientais, também, como a devastação da Amazônia. Pequenos posseiros existem desde sempre, mas o problema começa de fato quando há um grande investimento. Porque ele dificilmente não respeita as leis ambientais, e em geral corrompe a fiscalização. O posseiro que matou uma onça vai para a cadeia; o empresário que devastou quilômetros e quilômetros de floresta está viajando de jatinho para Miami. A concentração de renda se retroalimenta porque cria impunidade e privilégios em várias áreas.
EC – Nesse cenário, qual a perspectiva de solução?
Cattani – Precisamos de formação e de informação. As pessoas não sabem o que acontece, o trabalhador que paga impostos compulsoriamente acha que todo mundo paga também. A solução é simples: basta os ricos pagarem os impostos que devem.
EC – Mas como fazer isso?
Cattani – Sensibilizando a população, já que pela via legislativa ou pelo poder do Estado não tem como. Não com esse Congresso nem com esses governos. As pessoas têm que saber o que está por trás de determinadas decisões políticas. Um exemplo: pequenos empresários que aderem a essas campanhas por menos impostos precisam saber que os grandes empresários, que são seus ídolos, não pagam imposto. Quem paga é ele. Se todo mundo pagasse seus impostos corretamente, dentro dos padrões capitalistas normais, o equilíbrio seria muito maior.
EC – Para onde esse comportamento vai nos levar, na sua opinião?
Cattani – Para o desastre.
EC – Desastre? De que tipo?
Cattani – Um empobrecimento brutal da população trabalhadora ou desempregada, que já estamos vendo aí pelas ruas. A queda para a pobreza é rápida, em um, dois anos, o pessoal que perde emprego se afunda. A parte mais vulnerável da sociedade sente isso rapidamente, há um enorme contingente que voltou a passar fome, que voltou a viver na rua, com mais violência, mais crimes. Um desastre social. Ao mesmo tempo, com o aumento da distância entre ricos e pobres, veremos ainda mais concentração de renda. Isso é muito sério, pois fica cada vez mais difícil combater esse modelo.
EC – Há um risco de convulsão social?
Cattani – Aí a análise é mais complicada. Veja bem: o sistema vai crescendo, crescendo, vai jogando gente para fora. Chega um ponto em que todo esse capital concentrado não consegue a rentabilidade necessária porque não tem quem o sustente. Não há mais consumidores. Isso parece óbvio: mais pobres, menos consumo. Mas aí temos de nos deter num detalhe: o sujeito que tem muito dinheiro não tem medo de arriscar. Ou seja, transforma a economia num cassino, que vai criando o que chamamos de volatilidade econômica, ou seja, um colapso global.
EC – Já não vivemos isso em 2008, com recuperação?
Cattani – Aquilo foi um ensaio, apenas. Uma brincadeirinha, uma reacomodação. A crise de 1929, a maior dos tempos, foi provocada justamente pela concentração de riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas. Depois do crash, durante 45 anos os mais ricos, até mais ou menos 1980, se mantiveram num patamar relativamente seguro de estabilidade para o sistema. O que vemos hoje, não há dez anos, é que estamos chegando ao nível de concentração proporcional ao que se podia observar em 1929. Vai passar desse nível, mais um ano ou dois, não mais, vai passar. E isso não é funcional para a economia. Há uma série de legislações favorecendo a concentração. Ao mesmo tempo, as camadas médias, os serviços prestados pelo Estado, já não dão conta de manter o sistema em relativo equilíbrio. O que estamos vendo, então, é uma transferência de recursos sem controle que nunca ocorreu antes. Nos Estados Unidos, os executivos de grandes empresas triplicaram seus rendimentos, seus bônus anuais, nos últimos 30 anos. Não sou eu quem está dizendo isso, mas a (revista) The Economist. Eles estão dizendo que vai arrebentar, eles estão pedindo para parar. E ninguém para. O que pode ocorrer, na minha opinião, é uma quebra ainda maior que em 1929. Estamos vivendo a crônica do desastre anunciado. A ganância não tem limites: quanto mais dinheiro, mais forte. Quanto mais forte, mais ganancioso. É um círculo vicioso que só estica mais e mais essa corda. É uma luta ideológica cruel porque nós, os 99% que não temos quase nada, não conseguimos nos sobrepor aos 1% que detém a riqueza do planeta."




(De Antonio Davi Cattani, em entrevista ao site Extra Classe, post intitulado "Podres de ricos investem no desastre social", reproduzido no Jornal GGN - aqui.
"A apresentação do entrevistado, de autoria de Flávio Ilha: "Economista, professor e um dos mais respeitados pesquisadores sobre a concentração de riqueza no mundo, Antonio David Cattani está lançando um novo livro. Em Ricos, podres de rico (Tomo Editorial, 64 páginas), disseca de forma didática e acessível – “sem economês”, salienta – como o aumento da riqueza nas mãos de poucas empresas ou pessoas é um risco à democracia, além de uma ameaça ao próprio capitalismo. “A crise de 1929 foi provocada pelo mesmo fenômeno que estamos observando agora. Em um, dois anos, vamos ultrapassar aquele patamar de concentração. É a crônica de um desastre anunciado”, diz nesta entrevista ao Extra Classe."
No auge da implantação da globalização no mundo, lá se vão três, quatro décadas, uma socióloga francesa não conseguiu manter a serenidade diante do desprezo que marcava a atuação dos ricos e parceiros frente à situação dos pobres e desqualificados; segundo os 'ultra-humanos', deveriam ser deixados ao relento e sem ocupação, descartados até a morte. A reação da socióloga bem que poderia ser utilizada para resumir o quadro apresentado pelo economista Cattani. Disse ela, na ocasião: "O HORROR, O HORROR!").

O POVO DESEJA A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO NACIONAL


Apesar da Lava Jato, 58% preferem que o governo continue dono da Petrobras

Do Poder360

Apesar do escândalo da Lava Jato ter revelado 1 esquema de corrupção sistêmica dentro da Petrobras, 58% dos brasileiros acima de 16 anos são contra a venda da estatal. Preferem que o controle continue com o governo federal, revela pesquisa do DataPoder360.
Só 22% dizem ser a favor da venda da Petrobras. Essa opinião também se estende, em certa medida, para o restante das empresas estatais.
Leia aqui a íntegra da pesquisa DataPoder360 de agosto.
DataPoder360 também perguntou o que os brasileiros acham, de maneira geral, de o governo federal ser o dono de empresas como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras.
A resposta de 46% dos entrevistados foi que essas estatais devem ficar como estão: sob o comando do governo federal.
Apenas 19% acham que é melhor vender parte ou todas as empresas estatais. Há, entretanto, um alto percentual de entrevistados que não têm opinião formada sobre o assunto: 35%. (...).
(Para continuar, clique AQUI).
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Trata-se de uma boa notícia. Não obstante, convém lembrar que os desejos do povo não andam assim tão em alta: na esteira dos 'conselhos' oferecidos há meses (AQUI) pelo publicitário Nizan Guanaes, governos impopulares devem ignorar seus índices e fazer 'o que realmente importa': pôr em prática seus planos: se o que convém é aprofundar a crise nacional, para arrumar o argumento de que, "esgotadas as alternativas, a única medida que resta é privatizar", que se vá adiante, sem delongas. A opinião do povo, como diria o outro, será apenas um detalhe.

DRINK


Yuri Kosobukin. (Ucrânia).

BANNON OUT


Dave Granlund. (EUA).

EM ALGUM LUGAR SE PERDEU


"O jogo dos tempos é um dos grandes desencontros da história. O homem só tem o presente. O passado o é por retenção, seja da memória ou da história. O futuro não é ainda, surge somente por projeção. Ao falar do passado, temos, nas palavras de Paul Ricoeur, um “presente-ausente”. O passado não está mais ali, embora dele falemos. Este processo de falar sobre o que já não existe configura um dos espaços da memória e, quando mediado por uma narrativa de alguém diferente de mim, chama-se História.

Parece simples, afinal nada soa mais inexorável ao ser humano do que o tempo. Contudo, a política é capaz de jogar com os tempos de forma a tornar confusa a orientação de todo um grupo de pessoas. Quando eu articulo um discurso de cunho nacionalista, que rememora símbolos, cores, personagens e etc., eu trago o passado de volta através de memórias que foram coletivamente construídas. Os sentidos sociais da memória atuam como mediadores de um tempo que não existe e que, quase sempre, nunca existiu para os que se valem deles.

Este jogo, de um passado que não passa, é uma das faces da política, que, no mundo contemporâneo, tem a ajuda da comunicação instantânea. Reconstruir o passado que se quer apenas por se dispor de mais recursos materiais é a grande arma política do século XXI. Com espaço na mídia, cliques, sites, perfis falsos, notícias falsas, fazendas de “likes” e alguns milhões do dinheiro que for, é possível criar narrativas que alteram as retenções do passado. Os cidadãos comuns, imersos nos problemas do dia-a-dia, mal conseguem reter as informações do que ocorreu na semana passada, o que dirá conseguirem defender-se deste ataque político, que usa a História, sua teoria e muito dinheiro.
Da mesma forma que o passado é reconstruído sob os olhares de especialistas (historiadores) atônitos, o futuro sofre a mesma distorção. Também o futuro é constantemente reconstruído através do “horizonte de possibilidades”, na terminologia de Reinhardt Koselleck. O que eu farei amanhã, com quem almoçaremos no sábado e quantos amigos vão viajar conosco em dezembro, são apenas algumas das construções de futuro que fazem, no presente, emergir ações que não aconteceriam se não fosse este futuro imaginado. Muito provavelmente se esperamos a viagem em dezembro, nos privaremos de alguns gastos presentes. O futuro, portanto, conforme construído imageticamente no presente, transforma este mesmo presente.
Em algum lugar desta ciranda dos tempos o Brasil se perdeu. Éramos o “país do futuro” na década de 70. Viramos o país de um presente eterno na crise dos anos 80 e 90. Nada mudava, vivíamos em um looping de expropriação, fome, diferenciação social aumentando todo o tempo. Tudo o que a maioria dos brasileiros podia esperar ocorria no espaço e uma semana. Após isto, a incerteza econômica e política roubavam do Brasil qualquer plano de futuro. A partir de 2003, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil tomava para si o seu presente. As mudanças efetivamente aconteceram entre 2003 e 2014. Indiferente ao que hoje se constrói de narrativa.
O custo de reescrever este passado foi, porém, muito alto. Ele levou a democracia brasileira, destruiu parte das nossas instituições, libertou o fascismo que pensávamos morto desde Plínio Salgado e está jogando milhões na pobreza novamente. Tudo isto feito de forma racional mediante um cálculo de custo-benefício. Os grupos que se associaram para este ataque político tinham claro que os ganhos imediatos não seriam grandes, mas haveria a interdição de um futuro no Brasil. Um futuro em que nos tornávamos um país mais igual economicamente, em que viramos a quinta economia do mundo e tínhamos um projeto claro de nação, unindo a extração de petróleo e a educação. Educação que se transformava. E transformaria o Brasil, não fossem as gerações não educadas por este novo Brasil a se rebelarem, por não reconhecerem mais o “seu país”.
Este é o sentido do golpe e das transformações desde 2013. Em primeiro lugar, reescrever o passado recente de forma a que “nunca mais aconteça”. Que o Brasil nunca mais tenha a pachorra de tentar assenhorear-se do presente. Em um segundo momento, que fiquem garantidos os privilégios dos grupos sociais ricos e brancos. Privilégios existentes desde sempre. O Brasil volta a ficar emparedado entre um passado que não passa e um futuro que nunca chega. Este é todo o desespero da parte consciente de nossa população.
Estão nos roubando muito mais do que apenas dinheiro. Estão roubando a nossa noção de futuro. O futuro deles é o passado que não queremos, e que tanto lutamos para não ver de volta. Que nossos filhos nos perdoem."



(De Fernando Horta, post intitulado "Em algum lugar se perdeu", publicado no Jornal GGN - AQUI. Horta é cientista político).

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

NOUS SOMMES LE MONDE


Christo Komarnitski. (Bulgária).

PANORAMA MUNDIAL


Pavel Constantin. (Romênia).

OS SEGREDOS DO MYWEBDAY DA ODEBRECHT, PARTE 2


Preliminarmente, para entender o que ocorre, a Parte 1, reproduzida neste blog no dia 12 - AQUI -:

PLANILHAS ESCONDIDAS DA ODEBRECHT FORAM RECUPERADAS PELA SUÍÇA

Um dos principais mistérios das delações da Odebrecht que comprometiam boa parte das acusações contra políticos era a falta de acesso ao MyWebDay, um sistema utilizado pela empreiteira para registrar os repasses de caixa dois e propinas a contas de beneficiários pelo setor de operações estruturadas.

Até recentemente, nem o próprio coordenador da força-tarefa de Curitiba, o procurador Deltan Dallagnol, teria conseguido o acesso aos dados da contabilidade de remessas ilegais da Odebrecht. O arquivo havia sido descoberto no ano passado, quando uma funcionária do departamento foi presa, e indicou que os registros traziam as ordens de pagamentos não somente a políticos, como também integrantes do Judiciário, diplomacia e tribunais de contas.

Entretanto, as informações eram supostamente armazenadas pela Suíça, uma vez que os materiais são de extratos bancários de pagamentos a offshores no exterior, além de planilhas destas transferências bancárias e, segundo Dallagnol, o país ainda não tinha compartilhado os dados com os investigadores brasileiros.

A resposta do coordenador da força-tarefa foi dada à própria Justiça Federal do Paraná, quando os advogados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediram o acesso a estes materiais para comprovar que não há provas das acusações de propinas ou favorecimentos da Odebrecht a ele.

Além da Suíça, teriam acesso à chave do sistema alguns executivos da companhia, como o diretor Hilberto Mascarenhas, que, inicialmente, afirmou à Justiça que tinha a senha e depois voltou atrás, afirmando que havia se desfeito dela. De acordo com coluna da Monica Bergamo no início do mês, até o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o DOJ, teria tentado abrir o arquivo, sem sucesso, por ser "aparentemente inviolável", apontou a jornalista.

O que se tinha de público do MyWebDay eram planilhas de alguns acordos de delações de executivos da companhia, que partiram de correspondências antigas entre diretores da Odebrecht. Entretanto, a defesa de Lula acreditava que os investigadores teria, sim, o acesso aos dados, mas queriam criar dificuldades para a transparência junto aos advogados.

Tal mistério parece ter sido solucionado. Isso porque a força-tarefa de Curitiba teria recebido boa parte dos documentos do sistema MyWebDay. De acordo com os investigadores, os materiais poderão corroborar delações que não foram levadas adiante por falta de provas e, ainda, abrir novas frentes de investigações, podendo as planilhas e documentos indicar nomes de beneficiários de recursos ilícitos que ainda não foram investigados.

O silêncio, até agora, destes documentos foi justificado porque, segundo os procuradores, o programa criado nos anos 90 foi apagado em 2014, quando a Lava Jato começou a apurar as irregularidades junto à Petrobras. Além de extratos bancários e comprovantes, planilhas com nomes e codinomes, valores relacionados a obras, e planejamentos de pagamentos ilícitos estavam registrados.

Os investigadores suíços teriam conseguido recuperar grande parte do material, entregue à Odebrecht, o que foi uma das portas de entrada da empreiteira para conseguir os acordos de delações e leniência junto ao Ministério Público Federal brasileiro. Os dados teriam chegado à Curitiba nesta semana.
....


Eis que ontem, 17, a defesa do ex-presidente informou haver ingressado em Juízo com "... um pedido junto ao juiz Sergio Moro para obrigar a equipe do procurador Deltan Dallagnol a revelar as mensagens trocadas com o Ministério Público suíço a respeito do sistema MyWebDay, usado pela Odebrecht para registrar pagamentos de propina. Na nota, o advogado Cristiano Zanin levanta suspeitas sobre a história de que a turma de Dallagnol 'não teve acesso ao sistema porque a Odebrecht perdeu a chave'.

De acordo com o informe, a Odebrecht e o MPF só deram a desculpa de que não têm mais acesso à íntegra do material que foi encontrado na Suíça 5 dias após a defesa de Lula pedir para conhecer as informações que constam no sistema. (...)".  
(Para continuar a leitura do post "ODEBRECHT SÓ DISSE QUE PERDEU CHAVE DE SISTEMA DE PROPINA APÓS LULA PEDIR ACESSO", originalmente publicado no Jornal GGN, clique AQUI).
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E assim segue, disciplinada e persistentemente, a busca da verdade verdadeira. 
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ADENDO em 19.08: O juiz Sérgio Moro negou acolhimento ao pedido em questão - aqui.

CONTURBADO MUNDO

Jarbas.
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- Refugiados... Caos climático...
- A América do Sul não existe?
- Claro que existe. A Venezuela, por exemplo...
- Isso! Conturbação é aquilo lá!
- Mas o que não existe é alusão ao fato de que a Venezuela é dona das maiores reservas mundiais de petróleo, despertando a cobiça das grandes potências, notadamente da Metrópole, o que explica muita coisa...
- Por favor, por favor, não venha conturbar o ambiente!

BARCELONA


Simanca.

MESA

Saman Torabi. (Irã).

Mesa

Por Luís Fernando Veríssimo

-Iiih, tá cheio.
- Espera aqui que eu vou falar com o maître...
- Tá bom.
- Ó amigo. 
- Pois não?
- Tem aí uma mesinha pra dois?
- No momento, não. Mas se o senhor quiser esperar...
- Quanto tempo?
- Dois minutos. Uma mesa já pediu o cafezinho.
- Não, é o seguinte. Minha namorada queria muito vir a este restaurante e eu não posso fazer feio com ela, entende? Não dá pra dar um jeitinho?
- Infelizmente, não. Mas se o senhor puder esperar três minutos...
- Você disse dois.
- A mesa já vai ficar vaga, cavalheiro.
- Não dá pra dar uma apressadinha? Olha, você não vai se arrepender... Tome aqui...
- Não, muito obrigado.
- Grande. Encontrei um brasileiro que não aceita propina! Ainda há esperança. Estamos salvos. Chama o Janot!
- É só ter um pouco de paciência, cavalheiro. Um minuto.
- Mas esse cafezinho não acaba nunca!
- Eles podem ter pedido um licor depois do café.
- Um licor?! Quem é que toma licor, hoje em dia? Assim já é demais. Eu vou tirar eles dessa mesa a tapa.
- Por favor...
- A tapa! Qual é a mesa?
- Acalme-se.
- Eu estou calmo. Me mostre qual é a mesa.
- Por favor, cavalheiro, solte as minhas lapelas.
- Qual é a mesa?
- É aquela ali.
- E estão mesmo tomando licor. Isso é o fim. A gente já tem medo de sair à noite por causa dos assaltos e quando sai, dá nisso. Já viram que eu quero a mesa deles e estão fazendo de propósito. E você é cúmplice, patife.
- Controle-se.
- Escuta aqui. Você obviamente não me reconheceu. Ator. Novela das nove. Olha o perfil. Uma recomendação minha e toda a Rede Globo baixa aqui.
- Sim, mas...
- Ou então, se você preferir, eu posso espalhar que esse restaurante é uma porcaria. Que eu encontrei uma barata no tiramisú.
- Por favor, cavalheiro.
- Uma barata no tiramisú! A saúde pública vem aqui na mesma hora. É isso que você quer?
- Não, cavalheiro, eu...
- Está bem. Eu não queria fazer isso, mas sou forçado pela sua má vontade em nos arranjar uma mesa. É contra os meus princípios, mas vou lhe dar um carteiraço. Eu sou da Polícia Federal. Serviço Secreto. Olha aqui minha identidade.
- Mas esta é sua carteira de motorista.
- E você acha que eu ia andar com uma carteira do Serviço Secreto no bolso? A carteira de motorista faz parte do disfarce. E meu nome também não é esse. Arranje-nos uma mesa ou prepare-se para ter sérios problemas com a polícia. 
- Olha lá, eles estão pagando a conta. Eles já vão sair. 
- Eu sabia que meus argumentos acabariam por convencê-lo, amigo. Obrigadão!

....
(Vi aqui).