sábado, 19 de agosto de 2017

COMO A RIQUEZA VAI DESTRUIR A DEMOCRACIA


"Extra Classe – O senhor estuda a concentração de riqueza nas mãos de poucas pessoas há pelo menos dez anos. A que conclusões chegou nesse período?
Antonio Davi Cattani – Meu argumento é que a concentração de renda com a existência de multimilionários é nefasta para a economia e para a democracia. Para a democracia parece evidente, gera corrupção, tráfico de influência. Mas na economia persiste uma discussão sobre a importância de se acumular riqueza antes de distribuí-la. Em outras palavras, a tese de que a concentração de renda criaria mecanismos de maior eficiência econômica para investimentos produtivos que gerassem mais empregos e oportunidades. Bem, dez anos depois posso afirmar que isso é uma falácia. Uma mentira deslavada. Um discurso dos ricos, que querem apenas justificar seus rendimentos e seus privilégios.
EC – Não se trata de um fenômeno do capitalismo brasileiro?
Cattani – Não, de jeito nenhum. Em nenhum capitalismo, em nenhum lugar, a acumulação volta para a sociedade. Em outro livro (A Riqueza Desmistificada, 2007) eu analiso a situação dos Estados Unidos, onde há uma redução de impostos para os mais ricos, desde o primeiro governo de Bill Clinton (a partir de 1993) até o Barak Obama. Mostro ali que, ao contrário do que justificam os teóricos da concentração, não há mais investimentos, mas apenas mais especulação, o que gera instabilidade econômica e mais consumo de produtos de alto luxo, iates, jatinhos, viagens ao espaço. Os podres de rico têm tanto dinheiro que em determinado momento surge a seguinte questão: investir mais para quê? Para se incomodar contratando mais gente? Se eu posso ganhar dinheiro, muito dinheiro, com isenções, com privilégios fiscais? No caso brasileiro, que você menciona, o agravante é que a concentração de riqueza permite comprar, entre outras coisas, o próprio Congresso. Dou o exemplo da JBS, que investiu milhões de reais, centenas de milhões de reais, em todos os partidos, por uma razão bem objetiva: defender seus privilégios. Os bancos, a indústria farmacêutica, o ensino particular, o agronegócio, todos usam essa estratégia. Isso é um atentado à democracia.
EC – Qual a relação possível dessa concentração de riqueza com a nossa atual crise política?
Cattani – Total. O golpe do ano passado foi todo financiado por essa concentração, por esse poder econômico nas mãos de poucos. Não estamos falando do empresariado em geral, há empresários sérios e comprometidos com resultados, que cumprem as leis, mas do grande capital, dos grandes conglomerados que têm um controle estrito sobre a política e também sobre a mídia.
EC – O que isso tem a ver, por exemplo, com a condenação do ex-presidente Lula? Há alguma relação?
Cattani – Sim e não. Por um lado, a concepção da chamada República de Curitiba segue esse padrão concentrador: um pessoal forjado nos Estados Unidos, com uma mentalidade antipopular e elitista, cuja visibilidade se deve ao apoio dos grandes grupos econômicos, que contamina principalmente a classe média. Dou um exemplo: a indústria farmacêutica não suportou a ideia de uma medicina preventiva, desenvolvida nos governos do PT. O ideal, para esse segmento, é deixar as pessoas adoecerem para vender remédios. Outro exemplo: o ingresso de alunos das classes mais baixas na universidade pública, que provocou indignação em muitas áreas específicas. Isso evidentemente está associado com concentração de renda e espírito elitista. Mas não é uma exclusividade brasileira, a concentração de renda ocorre em todo o mundo, até na Suécia – que era um modelo clássico de distribuição – o que não remete à criminalização do ex-presidente Lula. De modo geral, a concentração está se acentuando nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra.
EC – Desde quando?
Cattani – Desde os anos de 1980. Basicamente devido à mobilidade do capital financeiro obtida a partir da tecnologia da informação. O poder desse pessoal, o poder desses podres de ricos, só aumentou. Eles compram, corrompem, criam leis, privilégios, isenções. E quando tudo dá errado, dão um golpe de Estado ou, se não for possível, mandam o dinheiro para fora e o reintegram à economia quando as coisas estiverem melhores. Essa história de que os investidores estrangeiros estão voltando ao país, por exemplo, é mais uma balela. É tudo capital brasileiro, nacional, capital que está lá fora, que foi obtido de forma ilegal, que está sendo repatriado.
EC – Por que tão poucos pesquisadores estudam a riqueza na academia?
Cattani – Porque é muito mais fácil trabalhar com a pobreza, com os pobres. Entrevistar um papeleiro, um operário, um gerente de fábrica, é tranquilo. Agora, vai tentar entrevistar um grande empresário, vai perguntar ao (Jorge) Gerdau por que ele levou a sede do seu grupo econômico para Amsterdã (Holanda). Primeiro, você não chega perto dele nem com uma agenda especial, de pesquisador. Depois, a informação essencial é protegida, não se torna pública de jeito nenhum. Eu escrevi um artigo sobre fraudes corporativas e apropriação de riqueza que não consegui publicar no Brasil, apenas no México (na revista Convergência), em 2009. Isso que tinha apenas informações públicas.
EC – Qual é a metodologia dos muito ricos para ficarem cada vez mais ricos?Cattani – Primeiro, os muito ricos se protegem mutuamente. Ou seja, transparência (de informações) só vale mesmo para o Estado, para os governos. Nas empresas deles, não mesmo. Segundo: fomentam ideologicamente a ideia de meritocracia, a ideia de que a pobreza é um problema, e a riqueza, em contraponto, é solução. É claro que não é a solução, a concentração da riqueza agrava o problema da desigualdade. Isso é óbvio. Mas essa falsa meritocracia acaba prevalecendo, as pessoas acham que os ricos são, ou ficaram ricos, porque são competentes. Não é verdade, tirando as exceções de praxe. A maioria dos grandes empresários, por sinal, frauda as regras da concorrência, do livre mercado, quando fazem aquisições, quando compram os concorrentes. Para os grandes empreendimentos, essas regras simplesmente não existem. Outra conclusão possível é de que a riqueza não é abstrata, não está por trás de uma marca, de um conglomerado. Esses impérios são comandados por pessoas, por pessoas físicas, o dinheiro vai para a conta dessas pessoas. É a personalização da riqueza, com nome, endereço e conta bancária. Os privilégios, portanto, estão tanto no nível corporativo quanto no nível pessoal. Uso um exemplo bem simples e clássico para mostrar isso: quem ganha um salário, digamos, de R$ 5 mil aqui, paga imposto de renda compulsoriamente numa alíquota de quase 30%. Já o dono de uma empresa, pessoa física, que ganha R$ 5 milhões de pró-labore, não paga nada, nem um centavo, porque essa renda é lançada como lucro e dividendo – que é isento na nossa legislação. Proporcionalmente, essa pessoa física deveria pagar cerca de R$ 1,4 milhão de imposto de renda sobre esse montante. Mas não paga porque temos uma legislação, criada por um lobby empresarial, determinando essa isenção. As pessoas acham que o fulano é rico porque é competente. Mentira: é rico porque compra privilégios.
EC – Que dados o senhor usa em suas pesquisas, diante da dificuldade de se obter informações confiáveis do mundo corporativo?
Cattani – Temos de usar apenas dados públicos, pois não há outra maneira. Temos que usar o que aparece por aí, reportagens, balanços, estudos. Algumas ONGs fazem trabalhos ótimos de investigação. Um desses levantamentos, por exemplo, conseguiu identificar evasão de divisas por grandes empresas exportadoras: as companhias que comercializam commodities vendem oficialmente por um preço abaixo da cotação internacional e recebem a diferença, digamos 20%, 30% do valor de face, diretamente em contas no exterior. Exportam com subfaturamento e recebem a diferença diretamente em paraísos fiscais.
EC – Isso não é lavagem de dinheiro?
Cattani – Sim. E corrupção também, porque é uma operação que precisa ser camuflada de alguma forma.
EC – Operações como Lava Jato e Zelotes podem ajudar a moralizar esse ambiente empresarial?
Cattani – Essa é uma outra questão que precisamos desmistificar: qual foi, por exemplo, o rombo causado na Petrobras apurado pela operação Lava Jato? R$ 10 bilhões? Mas qual o montante de sonegação das grandes empresas brasileiras, a cada ano? É da ordem de R$ 300 bilhões, segundo o sindicato dos auditores fiscais. Talvez R$ 500 bilhões, não se sabe ao certo. Por ano. Na fusão do Itaú com o Unibanco, uma taxação superior a R$ 25 bilhões acabou de ser anistiada pelo Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) porque os conselheiros consideraram que não houve ganho de capital na transação. O Carf é o mesmo órgão onde foram registrados inúmeros casos de compra de votos, que envolvem, entre outros, grupos de mídia como RBS e Globo. É claro que isso nunca vai ser manchete porque eles, incluindo a mídia, se protegem. É um quebra-cabeças. Por que a Gerdau, que já mencionei aqui, foi para Amsterdã? Porque é um paraíso fiscal e, dessa forma, se resolve a questão sucessória. Aqui o imposto de transmissão patrimonial varia de 6% a 8%. Baixíssimo. Nos Estados Unidos, é de 40%. No Japão chega a quase 60%. Em Amsterdã é zero. Ou seja, nossos super-ricos não querem nem pagar o mínimo que a legislação do Brasil exige na transmissão de poder e de capital para os sucessores. Isso é lavagem de dinheiro, uma forma de manutenção da riqueza. É como se houvesse um mundo paralelo ao nosso, do qual nem chegamos perto. O problema é que esse mundo está acabando conosco.
EC – Além das cifras bilionárias, esse mundo paralelo envolve mais o quê?
Cattani – Impunidade, principalmente. E problemas de ordem moral, pois historicamente esse pessoal se safa em todos os processos, sejam administrativos, sejam criminais. Problemas ambientais, também, como a devastação da Amazônia. Pequenos posseiros existem desde sempre, mas o problema começa de fato quando há um grande investimento. Porque ele dificilmente não respeita as leis ambientais, e em geral corrompe a fiscalização. O posseiro que matou uma onça vai para a cadeia; o empresário que devastou quilômetros e quilômetros de floresta está viajando de jatinho para Miami. A concentração de renda se retroalimenta porque cria impunidade e privilégios em várias áreas.
EC – Nesse cenário, qual a perspectiva de solução?
Cattani – Precisamos de formação e de informação. As pessoas não sabem o que acontece, o trabalhador que paga impostos compulsoriamente acha que todo mundo paga também. A solução é simples: basta os ricos pagarem os impostos que devem.
EC – Mas como fazer isso?
Cattani – Sensibilizando a população, já que pela via legislativa ou pelo poder do Estado não tem como. Não com esse Congresso nem com esses governos. As pessoas têm que saber o que está por trás de determinadas decisões políticas. Um exemplo: pequenos empresários que aderem a essas campanhas por menos impostos precisam saber que os grandes empresários, que são seus ídolos, não pagam imposto. Quem paga é ele. Se todo mundo pagasse seus impostos corretamente, dentro dos padrões capitalistas normais, o equilíbrio seria muito maior.
EC – Para onde esse comportamento vai nos levar, na sua opinião?
Cattani – Para o desastre.
EC – Desastre? De que tipo?
Cattani – Um empobrecimento brutal da população trabalhadora ou desempregada, que já estamos vendo aí pelas ruas. A queda para a pobreza é rápida, em um, dois anos, o pessoal que perde emprego se afunda. A parte mais vulnerável da sociedade sente isso rapidamente, há um enorme contingente que voltou a passar fome, que voltou a viver na rua, com mais violência, mais crimes. Um desastre social. Ao mesmo tempo, com o aumento da distância entre ricos e pobres, veremos ainda mais concentração de renda. Isso é muito sério, pois fica cada vez mais difícil combater esse modelo.
EC – Há um risco de convulsão social?
Cattani – Aí a análise é mais complicada. Veja bem: o sistema vai crescendo, crescendo, vai jogando gente para fora. Chega um ponto em que todo esse capital concentrado não consegue a rentabilidade necessária porque não tem quem o sustente. Não há mais consumidores. Isso parece óbvio: mais pobres, menos consumo. Mas aí temos de nos deter num detalhe: o sujeito que tem muito dinheiro não tem medo de arriscar. Ou seja, transforma a economia num cassino, que vai criando o que chamamos de volatilidade econômica, ou seja, um colapso global.
EC – Já não vivemos isso em 2008, com recuperação?
Cattani – Aquilo foi um ensaio, apenas. Uma brincadeirinha, uma reacomodação. A crise de 1929, a maior dos tempos, foi provocada justamente pela concentração de riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas. Depois do crash, durante 45 anos os mais ricos, até mais ou menos 1980, se mantiveram num patamar relativamente seguro de estabilidade para o sistema. O que vemos hoje, não há dez anos, é que estamos chegando ao nível de concentração proporcional ao que se podia observar em 1929. Vai passar desse nível, mais um ano ou dois, não mais, vai passar. E isso não é funcional para a economia. Há uma série de legislações favorecendo a concentração. Ao mesmo tempo, as camadas médias, os serviços prestados pelo Estado, já não dão conta de manter o sistema em relativo equilíbrio. O que estamos vendo, então, é uma transferência de recursos sem controle que nunca ocorreu antes. Nos Estados Unidos, os executivos de grandes empresas triplicaram seus rendimentos, seus bônus anuais, nos últimos 30 anos. Não sou eu quem está dizendo isso, mas a (revista) The Economist. Eles estão dizendo que vai arrebentar, eles estão pedindo para parar. E ninguém para. O que pode ocorrer, na minha opinião, é uma quebra ainda maior que em 1929. Estamos vivendo a crônica do desastre anunciado. A ganância não tem limites: quanto mais dinheiro, mais forte. Quanto mais forte, mais ganancioso. É um círculo vicioso que só estica mais e mais essa corda. É uma luta ideológica cruel porque nós, os 99% que não temos quase nada, não conseguimos nos sobrepor aos 1% que detém a riqueza do planeta."




(De Antonio Davi Cattani, em entrevista ao site Extra Classe, post intitulado "Podres de ricos investem no desastre social", reproduzido no Jornal GGN - aqui.
"A apresentação do entrevistado, de autoria de Flávio Ilha: "Economista, professor e um dos mais respeitados pesquisadores sobre a concentração de riqueza no mundo, Antonio David Cattani está lançando um novo livro. Em Ricos, podres de rico (Tomo Editorial, 64 páginas), disseca de forma didática e acessível – “sem economês”, salienta – como o aumento da riqueza nas mãos de poucas empresas ou pessoas é um risco à democracia, além de uma ameaça ao próprio capitalismo. “A crise de 1929 foi provocada pelo mesmo fenômeno que estamos observando agora. Em um, dois anos, vamos ultrapassar aquele patamar de concentração. É a crônica de um desastre anunciado”, diz nesta entrevista ao Extra Classe."
No auge da implantação da globalização no mundo, lá se vão três, quatro décadas, uma socióloga francesa não conseguiu manter a serenidade diante do desprezo que marcava a atuação dos ricos e parceiros frente à situação dos pobres e desqualificados; segundo os 'ultra-humanos', deveriam ser deixados ao relento e sem ocupação, descartados até a morte. A reação da socióloga bem que poderia ser utilizada para resumir o quadro apresentado pelo economista Cattani. Disse ela, na ocasião: "O HORROR, O HORROR!").

O POVO DESEJA A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO NACIONAL


Apesar da Lava Jato, 58% preferem que o governo continue dono da Petrobras

Do Poder360

Apesar do escândalo da Lava Jato ter revelado 1 esquema de corrupção sistêmica dentro da Petrobras, 58% dos brasileiros acima de 16 anos são contra a venda da estatal. Preferem que o controle continue com o governo federal, revela pesquisa do DataPoder360.
Só 22% dizem ser a favor da venda da Petrobras. Essa opinião também se estende, em certa medida, para o restante das empresas estatais.
Leia aqui a íntegra da pesquisa DataPoder360 de agosto.
DataPoder360 também perguntou o que os brasileiros acham, de maneira geral, de o governo federal ser o dono de empresas como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras.
A resposta de 46% dos entrevistados foi que essas estatais devem ficar como estão: sob o comando do governo federal.
Apenas 19% acham que é melhor vender parte ou todas as empresas estatais. Há, entretanto, um alto percentual de entrevistados que não têm opinião formada sobre o assunto: 35%. (...).
(Para continuar, clique AQUI).
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Trata-se de uma boa notícia. Não obstante, convém lembrar que os desejos do povo não andam assim tão em alta: na esteira dos 'conselhos' oferecidos há meses (AQUI) pelo publicitário Nizan Guanaes, governos impopulares devem ignorar seus índices e fazer 'o que realmente importa': pôr em prática seus planos: se o que convém é aprofundar a crise nacional, para arrumar o argumento de que, "esgotadas as alternativas, a única medida que resta é privatizar", que se vá adiante, sem delongas. A opinião do povo, como diria o outro, será apenas um detalhe.

DRINK


Yuri Kosobukin. (Ucrânia).

BANNON OUT


Dave Granlund. (EUA).

EM ALGUM LUGAR SE PERDEU


"O jogo dos tempos é um dos grandes desencontros da história. O homem só tem o presente. O passado o é por retenção, seja da memória ou da história. O futuro não é ainda, surge somente por projeção. Ao falar do passado, temos, nas palavras de Paul Ricoeur, um “presente-ausente”. O passado não está mais ali, embora dele falemos. Este processo de falar sobre o que já não existe configura um dos espaços da memória e, quando mediado por uma narrativa de alguém diferente de mim, chama-se História.

Parece simples, afinal nada soa mais inexorável ao ser humano do que o tempo. Contudo, a política é capaz de jogar com os tempos de forma a tornar confusa a orientação de todo um grupo de pessoas. Quando eu articulo um discurso de cunho nacionalista, que rememora símbolos, cores, personagens e etc., eu trago o passado de volta através de memórias que foram coletivamente construídas. Os sentidos sociais da memória atuam como mediadores de um tempo que não existe e que, quase sempre, nunca existiu para os que se valem deles.

Este jogo, de um passado que não passa, é uma das faces da política, que, no mundo contemporâneo, tem a ajuda da comunicação instantânea. Reconstruir o passado que se quer apenas por se dispor de mais recursos materiais é a grande arma política do século XXI. Com espaço na mídia, cliques, sites, perfis falsos, notícias falsas, fazendas de “likes” e alguns milhões do dinheiro que for, é possível criar narrativas que alteram as retenções do passado. Os cidadãos comuns, imersos nos problemas do dia-a-dia, mal conseguem reter as informações do que ocorreu na semana passada, o que dirá conseguirem defender-se deste ataque político, que usa a História, sua teoria e muito dinheiro.
Da mesma forma que o passado é reconstruído sob os olhares de especialistas (historiadores) atônitos, o futuro sofre a mesma distorção. Também o futuro é constantemente reconstruído através do “horizonte de possibilidades”, na terminologia de Reinhardt Koselleck. O que eu farei amanhã, com quem almoçaremos no sábado e quantos amigos vão viajar conosco em dezembro, são apenas algumas das construções de futuro que fazem, no presente, emergir ações que não aconteceriam se não fosse este futuro imaginado. Muito provavelmente se esperamos a viagem em dezembro, nos privaremos de alguns gastos presentes. O futuro, portanto, conforme construído imageticamente no presente, transforma este mesmo presente.
Em algum lugar desta ciranda dos tempos o Brasil se perdeu. Éramos o “país do futuro” na década de 70. Viramos o país de um presente eterno na crise dos anos 80 e 90. Nada mudava, vivíamos em um looping de expropriação, fome, diferenciação social aumentando todo o tempo. Tudo o que a maioria dos brasileiros podia esperar ocorria no espaço e uma semana. Após isto, a incerteza econômica e política roubavam do Brasil qualquer plano de futuro. A partir de 2003, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil tomava para si o seu presente. As mudanças efetivamente aconteceram entre 2003 e 2014. Indiferente ao que hoje se constrói de narrativa.
O custo de reescrever este passado foi, porém, muito alto. Ele levou a democracia brasileira, destruiu parte das nossas instituições, libertou o fascismo que pensávamos morto desde Plínio Salgado e está jogando milhões na pobreza novamente. Tudo isto feito de forma racional mediante um cálculo de custo-benefício. Os grupos que se associaram para este ataque político tinham claro que os ganhos imediatos não seriam grandes, mas haveria a interdição de um futuro no Brasil. Um futuro em que nos tornávamos um país mais igual economicamente, em que viramos a quinta economia do mundo e tínhamos um projeto claro de nação, unindo a extração de petróleo e a educação. Educação que se transformava. E transformaria o Brasil, não fossem as gerações não educadas por este novo Brasil a se rebelarem, por não reconhecerem mais o “seu país”.
Este é o sentido do golpe e das transformações desde 2013. Em primeiro lugar, reescrever o passado recente de forma a que “nunca mais aconteça”. Que o Brasil nunca mais tenha a pachorra de tentar assenhorear-se do presente. Em um segundo momento, que fiquem garantidos os privilégios dos grupos sociais ricos e brancos. Privilégios existentes desde sempre. O Brasil volta a ficar emparedado entre um passado que não passa e um futuro que nunca chega. Este é todo o desespero da parte consciente de nossa população.
Estão nos roubando muito mais do que apenas dinheiro. Estão roubando a nossa noção de futuro. O futuro deles é o passado que não queremos, e que tanto lutamos para não ver de volta. Que nossos filhos nos perdoem."



(De Fernando Horta, post intitulado "Em algum lugar se perdeu", publicado no Jornal GGN - AQUI. Horta é cientista político).

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

NOUS SOMMES LE MONDE


Christo Komarnitski. (Bulgária).

PANORAMA MUNDIAL


Pavel Constantin. (Romênia).

OS SEGREDOS DO MYWEBDAY DA ODEBRECHT, PARTE 2


Preliminarmente, para entender o que ocorre, a Parte 1, reproduzida neste blog no dia 12 - AQUI -:

PLANILHAS ESCONDIDAS DA ODEBRECHT FORAM RECUPERADAS PELA SUÍÇA

Um dos principais mistérios das delações da Odebrecht que comprometiam boa parte das acusações contra políticos era a falta de acesso ao MyWebDay, um sistema utilizado pela empreiteira para registrar os repasses de caixa dois e propinas a contas de beneficiários pelo setor de operações estruturadas.

Até recentemente, nem o próprio coordenador da força-tarefa de Curitiba, o procurador Deltan Dallagnol, teria conseguido o acesso aos dados da contabilidade de remessas ilegais da Odebrecht. O arquivo havia sido descoberto no ano passado, quando uma funcionária do departamento foi presa, e indicou que os registros traziam as ordens de pagamentos não somente a políticos, como também integrantes do Judiciário, diplomacia e tribunais de contas.

Entretanto, as informações eram supostamente armazenadas pela Suíça, uma vez que os materiais são de extratos bancários de pagamentos a offshores no exterior, além de planilhas destas transferências bancárias e, segundo Dallagnol, o país ainda não tinha compartilhado os dados com os investigadores brasileiros.

A resposta do coordenador da força-tarefa foi dada à própria Justiça Federal do Paraná, quando os advogados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediram o acesso a estes materiais para comprovar que não há provas das acusações de propinas ou favorecimentos da Odebrecht a ele.

Além da Suíça, teriam acesso à chave do sistema alguns executivos da companhia, como o diretor Hilberto Mascarenhas, que, inicialmente, afirmou à Justiça que tinha a senha e depois voltou atrás, afirmando que havia se desfeito dela. De acordo com coluna da Monica Bergamo no início do mês, até o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o DOJ, teria tentado abrir o arquivo, sem sucesso, por ser "aparentemente inviolável", apontou a jornalista.

O que se tinha de público do MyWebDay eram planilhas de alguns acordos de delações de executivos da companhia, que partiram de correspondências antigas entre diretores da Odebrecht. Entretanto, a defesa de Lula acreditava que os investigadores teria, sim, o acesso aos dados, mas queriam criar dificuldades para a transparência junto aos advogados.

Tal mistério parece ter sido solucionado. Isso porque a força-tarefa de Curitiba teria recebido boa parte dos documentos do sistema MyWebDay. De acordo com os investigadores, os materiais poderão corroborar delações que não foram levadas adiante por falta de provas e, ainda, abrir novas frentes de investigações, podendo as planilhas e documentos indicar nomes de beneficiários de recursos ilícitos que ainda não foram investigados.

O silêncio, até agora, destes documentos foi justificado porque, segundo os procuradores, o programa criado nos anos 90 foi apagado em 2014, quando a Lava Jato começou a apurar as irregularidades junto à Petrobras. Além de extratos bancários e comprovantes, planilhas com nomes e codinomes, valores relacionados a obras, e planejamentos de pagamentos ilícitos estavam registrados.

Os investigadores suíços teriam conseguido recuperar grande parte do material, entregue à Odebrecht, o que foi uma das portas de entrada da empreiteira para conseguir os acordos de delações e leniência junto ao Ministério Público Federal brasileiro. Os dados teriam chegado à Curitiba nesta semana.
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Eis que ontem, 17, a defesa do ex-presidente informou haver ingressado em Juízo com "... um pedido junto ao juiz Sergio Moro para obrigar a equipe do procurador Deltan Dallagnol a revelar as mensagens trocadas com o Ministério Público suíço a respeito do sistema MyWebDay, usado pela Odebrecht para registrar pagamentos de propina. Na nota, o advogado Cristiano Zanin levanta suspeitas sobre a história de que a turma de Dallagnol 'não teve acesso ao sistema porque a Odebrecht perdeu a chave'.

De acordo com o informe, a Odebrecht e o MPF só deram a desculpa de que não têm mais acesso à íntegra do material que foi encontrado na Suíça 5 dias após a defesa de Lula pedir para conhecer as informações que constam no sistema. (...)".  
(Para continuar a leitura do post "ODEBRECHT SÓ DISSE QUE PERDEU CHAVE DE SISTEMA DE PROPINA APÓS LULA PEDIR ACESSO", originalmente publicado no Jornal GGN, clique AQUI).
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E assim segue, disciplinada e persistentemente, a busca da verdade verdadeira. 
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ADENDO em 19.08: O juiz Sérgio Moro negou acolhimento ao pedido em questão - aqui.

CONTURBADO MUNDO

Jarbas.
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- Refugiados... Caos climático...
- A América do Sul não existe?
- Claro que existe. A Venezuela, por exemplo...
- Isso! Conturbação é aquilo lá!
- Mas o que não existe é alusão ao fato de que a Venezuela é dona das maiores reservas mundiais de petróleo, despertando a cobiça das grandes potências, notadamente da Metrópole, o que explica muita coisa...
- Por favor, por favor, não venha conturbar o ambiente!

BARCELONA


Simanca.

MESA

Saman Torabi. (Irã).

Mesa

Por Luís Fernando Veríssimo

-Iiih, tá cheio.
- Espera aqui que eu vou falar com o maître...
- Tá bom.
- Ó amigo. 
- Pois não?
- Tem aí uma mesinha pra dois?
- No momento, não. Mas se o senhor quiser esperar...
- Quanto tempo?
- Dois minutos. Uma mesa já pediu o cafezinho.
- Não, é o seguinte. Minha namorada queria muito vir a este restaurante e eu não posso fazer feio com ela, entende? Não dá pra dar um jeitinho?
- Infelizmente, não. Mas se o senhor puder esperar três minutos...
- Você disse dois.
- A mesa já vai ficar vaga, cavalheiro.
- Não dá pra dar uma apressadinha? Olha, você não vai se arrepender... Tome aqui...
- Não, muito obrigado.
- Grande. Encontrei um brasileiro que não aceita propina! Ainda há esperança. Estamos salvos. Chama o Janot!
- É só ter um pouco de paciência, cavalheiro. Um minuto.
- Mas esse cafezinho não acaba nunca!
- Eles podem ter pedido um licor depois do café.
- Um licor?! Quem é que toma licor, hoje em dia? Assim já é demais. Eu vou tirar eles dessa mesa a tapa.
- Por favor...
- A tapa! Qual é a mesa?
- Acalme-se.
- Eu estou calmo. Me mostre qual é a mesa.
- Por favor, cavalheiro, solte as minhas lapelas.
- Qual é a mesa?
- É aquela ali.
- E estão mesmo tomando licor. Isso é o fim. A gente já tem medo de sair à noite por causa dos assaltos e quando sai, dá nisso. Já viram que eu quero a mesa deles e estão fazendo de propósito. E você é cúmplice, patife.
- Controle-se.
- Escuta aqui. Você obviamente não me reconheceu. Ator. Novela das nove. Olha o perfil. Uma recomendação minha e toda a Rede Globo baixa aqui.
- Sim, mas...
- Ou então, se você preferir, eu posso espalhar que esse restaurante é uma porcaria. Que eu encontrei uma barata no tiramisú.
- Por favor, cavalheiro.
- Uma barata no tiramisú! A saúde pública vem aqui na mesma hora. É isso que você quer?
- Não, cavalheiro, eu...
- Está bem. Eu não queria fazer isso, mas sou forçado pela sua má vontade em nos arranjar uma mesa. É contra os meus princípios, mas vou lhe dar um carteiraço. Eu sou da Polícia Federal. Serviço Secreto. Olha aqui minha identidade.
- Mas esta é sua carteira de motorista.
- E você acha que eu ia andar com uma carteira do Serviço Secreto no bolso? A carteira de motorista faz parte do disfarce. E meu nome também não é esse. Arranje-nos uma mesa ou prepare-se para ter sérios problemas com a polícia. 
- Olha lá, eles estão pagando a conta. Eles já vão sair. 
- Eu sabia que meus argumentos acabariam por convencê-lo, amigo. Obrigadão!

....
(Vi aqui).

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

UM NOVO PRODUTO NA PRAÇA

Santiago.
....
- Condenação zero provas?! Algo me diz que esse produto vai encalhar.
- Como assim?
- É que ele é customizado: foi moldado para uma pessoa específica.

DO RACISMO


Quinho.

DA SÉRIE O DESTINO DOS PROGRAMAS SOCIAIS


"Espero que as pessoas de bem saibam que cortar o Bolsa Família das pessoas extremamente pobres do Brasil poderá produzir um verdadeiro genocídio, porque em sua grande maioria, em especial nos sertões, estes brasileiros poderão morrer de fome e das doenças derivadas da subnutrição.   

As pessoas atingidas são normalmente muito pobres habitantes de regiões, de modo geral dominadas por grandes propriedades, em que a oferta de empregos é mínima. São brasileiros que tradicionalmente foram por gerações e gerações abandonados pelo Estado brasileiro, não tiveram escolaridade e tudo o mais que faz de uma sociedade não um amontoado de pessoas mas uma nação.

O Bolsa Família e suas condicionalidades, como a obrigação da família de vacinar as crianças e colocá-las na escola, produziram resultados muito bons. As crianças, mais bem alimentadas, cresceram, adoeceram menos; as taxas de mortalidade infantil caíram enormemente. A tuberculose infantil quase desapareceu, antes matava muitas crianças com até um ano de idade. Afora outros benefícios que a renda dinheiro, mesmo muito pequena, trouxe às mulheres pobres em termos de expansão da liberdade pessoal. Ou seja, a positividade do programa é reconhecida em todo o mundo. Não se pode esquecer que a dinâmica de um programa imenso como o Bolsa Família exigiu o tempo todo correções no sentido de torná-lo mais justo e eficiente.  
Não é demais sublinhar que a busca de sua melhoria foi uma constante. Prova disto foram os aperfeiçoamentos de sua gestão e amplitude distributiva.   
O programa foi-se aperfeiçoando ao longo dos anos, com a criação de programas transversais, como o Brasil Carinhoso, dirigido às mulheres grávidas, com os cuidados de exames pré natais, e o programa de amamentação Brasil Nutriz; ambos  trouxeram benefícios muito grandes à saúde das crianças, particularidade comprovada por pesquisadores médicos.  Por tudo isto, o programa Bolsa Família recebeu inúmeros prêmios internacionais, inclusive da própria ONU.
Os cortes já feitos ao programa pelo governo ilegítimo de Michel Temer tiveram como justificativa correção de desvios, o que representa uma grande mentira.  
O combate às fraudes (pelo governo anterior) foi permanente, houve premiações internacionais por isto. Não é pouca coisa ter tido muito controle sobre fraudes, que sempre ocorrem, mas no caso do Bolsa Família, estatisticamente, foram relativamente raras. Não é ninharia para um programa - o maior do mundo em dimensão populacional e distributiva - que administrava quase 50 milhões de brasileiros ter garantido grande transparência tanto no seu modus operandi como nos seus critérios distributivos.  
Cortar uma família do beneficio exige cuidados na verificação da sua condição de trabalho e vida familiar, desde que a solidariedade e a responsabilidade moral, política e administrativa sejam os critérios centrais das políticas de correção de possíveis desvios de cadastramento e execução da política pública. (...) Quem faz pesquisa sabe que a população assistida pelo programa de transferência estatal de renda só consegue empregos eventuais e muito precários, até porque tal população é destituída de escolaridade e de qualificação profissional.
Depende do mês do ano a possibilidade de se conseguir um trabalho episódico, um bico, como dizem eles, um “beliscão”, e, assim, naquele período determinado, obter um aumento dos parcos rendimentos.  
Dessa forma, é necessário todo cuidado na averiguação antes de se promover cortes de rendimentos. Os aumentos da renda, na maioria das vezes, são sazonais e depois de uma colheita ou outra se pode permanecer um tempo longo sem nenhuma renda.
O PBF, pela primeira vez na história destas pessoas, na maioria dos casos, proporcionou continuidade de renda, e, assim, tornou possível a gestão racional  do orçamento familiar. Um aprendizado duro, pois a renda é muito pequena, mas estava sendo feito e com bons resultados.  Por outro lado, se deve analisar os efeitos coletivos  da renda monetária contínua para o país. Isto estimulou muito os mercados locais, às vezes expandindo-os significativamente.  
Certa vez em conversa com o prefeito de Inhapi, uma pequena cidade no Alto Sertão alagoano, disse-me ele que o comércio da cidade havia crescido enormemente, depois da chegada do Bolsa Família. Naquele ano, 2007, havia trazido para a cidade mais de 250, mil reais ao mês e este aporte de dinheiro, óbvio, havia se convertido em ampliação significativa das receitas da cidade.  
Isto posto, vem a pergunta que se pergunta, como diz Riobaldo (personagem de 'Grande Sertão: Veredas', de Guimarães Rosa). O que justifica cortar os recursos destas pessoas? Nada, apenas crueldade social para responder à sanha preconceituosa e mal informada da classe média paneleira. Na verdade, tornar ainda mais garantido o saque à nação para ampliar os lucros de rentistas de todos os naipes.
O feito inacreditável dos cortes é sua absurda lógica. Ora, tais cortes empobrecerão ainda mais os municípios que abrigam essa população, tornando-a mais miserável, menos consumidora de bens e serviços.  Resultado imediato desta perversa lógica: aumento do sofrimento social, politicamente evitável com políticas públicas bem desenhadas e bem debatidas.
Sinto informar, os cortes já feitos aumentaram o sofrimento, basta ir a estes lugares, já se vê, se ouve o lamento, como ouvi em junho o lamento pungente de Dona Andrea, nas cercanias de Inhapi, que me disse com muita emoção: 'Voltamos a passar fome'. Não bastasse isto, percebi semblantes amedrontados, o medo do destino, o medo de viver sem nenhuma segurança.  
Afinal, do que se trata è fácil saber, se efetiva mais uma vez uma grande violação dos direitos mais elementares da pessoa humana, como o direito à vida. Na pesquisa mais recente, nos sertões nordestinos do Ceará e de Alagoas, pude verificar o retorno da fome e com ela a presença dolorosa de crianças com 9 e 10 anos de idade pedindo esmolas, nos bares e postos de gasolina.
Pesquiso nessas regiões há mais de dez anos, essas cenas tinham diminuído muito, em algumas cidades havia quase desaparecido. Seu reaparecimento, como figuras “normais" do cotidiano das pessoas, é uma imagem assombrosa de um passado que não nos deixa passar, como diz o poeta. Tínhamos saído, pelos critérios da ONU, do mapa da fome, e, vergonhosamente, para lá voltamos a passos largos. A chamada elite que fez o golpe e seu governo colocam em prática políticas de Estado destrutivas de direitos elementares, e, para dizer o mínimo, irresponsáveis, mas, sobretudo, cruéis.  
Darcy Ribeiro sempre nos alertou sobre este traço de nossa dita elite. Esta gente dizia: é escravocrata, desenvolveu durante séculos uma insensibilidade social pouco vista no mundo. Sua crueldade com os pobres e desvalidos não tem limites. Não se espere dela nenhum sentimento humanitário. Pensa apenas em rapinar o país e usufruir de sua rapinagem lá fora. Não possuem nenhuma ética coletiva, reproduzem em fornadas sucessivas indivíduos dotados, cada dia mais, do espírito de ave de rapina, com suas gerências nada republicanas dos fundos públicos, tornando prática governamental sua perene torrente de bandalheiras administrativas, para falar a linguagem do grande Manoel Bonfim. Nossas ruas voltaram a exibir o dantesco espetáculo de mendigos dormindo ao relento, esfarrapados, famintos, pedindo esmolas de olhos inchados e esbugalhados.  
São tratados como coisas, como pedras renitentes no caminho dos transeuntes, devem ser queimados, espancados, ou até mortos pela polícia. Foi assim que fez um policial em Pinheiros, dias atrás. Em plena luz do dia executou a tiros um carroceiro miserável. É assim que se manifesta a aspereza, a desumanidade desta elite e de seus governos. Sua profunda ignorância das causas da pobreza a faz seguir e andar como embriagada pelo ódio aos pobres, vitaminada pela televisão e pelas revistas de baixo nível, compondo um conjunto sinistro de iniquidade moral e política. E a grande mídia, sem nenhuma grandeza, todos os dias zomba, insulta o povo brasileiro, com suas mentiras sistemáticas, com seu jornalismo manipulativo que omite a informação dos fatos para propagandear sua tosca visão de mundo.
Temos propaganda, e não jornalismo. O resultado disto sobre os consumidores desta pobreza intelectual é a perpetuação da desinformação em todas as classes sociais; impera uma espessa e profunda incultura que torna a classe média, por exemplo, incapaz de raciocinar e a conduz ao abraço de morte com as soluções antidemocráticas no que esta tem de mais grotesco. Ou seja, sua recusa obscurantista ao argumento fundamentado, e de qualquer reflexão. Hannah Arendt sempre advertiu sobre os perigos totalitários inerentes à irreflexão. Dizia ela que a generalização da não reflexão constitui a pavimentação mais segura para o triunfo de qualquer regime totalitário. Por isto, torna-se imperativo denunciar mais este crime do golpismo, efetivado nos cortes aos programas sociais voltados para combater a imensa desigualdade existente entre nós. Ainda uma vez, porque nossa chamada grande mídia não analisa o significado trágico dos cortes de recursos essenciais a vida social minimamente civilizada. Onde está o direito constitucional dos cidadãos à verdade informativa?   
Economia de gastos estatais para que e para quem? Vejamos.  Quanto custa ao país o programa Bolsa Família, que gasta 0,5 do orçamento nacional? (E quanto custam ao país) os juros da dívida pública, que se constituem em pagamento, ou melhor, em drenagem pura e simples de recursos da nação para ricos banqueiros e rentistas  e é apresentada pelos analistas financeiros, colunistas cativos de jornais e televisões como fenômeno natural, inevitável da vida social?  
A naturalização da rapinagem conforma talvez o fetiche mais enevoado da contemporaneidade brasileira.  A operação dívida pública expropria dos brasileiros mais de 40 por cento do orçamento da União. (Nota deste blog: Em 2014, juros da dívida pública pagos pelo Brasil correspondiam a 47% do orçamento da União - aqui).   Isto sim  drena recursos da nação. (Lazzarato, M. Governing by Debt.) Os juros pagos e uma das maiores taxas de juros do mundo favorecem a apropriação do orçamento nacional por grupos privados bilionários. Esses grupos derrubam governos e impõem sua agenda política e (econômica) sem nenhum pudor, pois não respeitam a soberania popular: a isonomia das urnas os horroriza. (...). (Além dos porta-vozes midiáticos, tais grupos) encontram em certa parte da burocracia pública setores do poder judiciário, um aliado eficaz na manutenção das brumas de sua dominação política e econômica. (...).
O rentismo constitui hoje o centro do poder efetivo, tem quase o monopólio do poder de vetar, sem ser visto como tal, a democracia em todas as suas formas e manifestações. Tal associação de puro domínio se apropria da alma das pessoas, manipula seus sentimentos mais profundos, as anestesia, as torna indiferentes ao sofrimento dos semelhantes.  
Por esta razão, não se vê nenhum protesto aos cortes do programa Bolsa Família, pois cortam a carne dos sem voz pública, dos invisíveis. Nenhuma solidariedade com o destino de seus concidadãos.  Ouçamos a voz liberal de Willian Beveridge, um dos designers do Welfare State inglês que dizia em seu famoso relatório apresentado ao parlamento da Inglaterra em 1942, '(...) libertar o homem da miséria é algo que não pode impor-se à democracia, nem ser a ela oferecido, mas que deve ser por ela conquistado'.







(De Walquiria Domingues Leão Rego, post intitulado "Crueldade social como política de Estado", publicado no Jornal GGNAQUI.

O texto acima guarda relação com o post "O esforço chinês no combate à fome e à miséria" - AQUI -, que suscitou o seguinte comentário de nossa parte:

"Enquanto isso, no Brasil, vêm-nos à mente programas como Bolsa Família (além da ajuda mensal para assegurar alimentação, a obrigatoriedade de as crianças frequentarem a escola), Mais Médicos e Assistência às Famílias (para bairros/comunidades carentes), Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - bastando lembrar que cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o País provêm ou provinham da agricultura familiar - aqui)... Lamentável, sem dúvida, vermos programas vitais às voltas com tantas dificuldades, limitações e esvaziamentos, enquanto outras potências se mantêm firmes, combatendo a fome e a miséria, e colhendo bons frutos em função deles, o que, aliás, o Brasil teve a oportunidade de também colher até passado recente."
....

Nota: Procedemos a pequenas alterações no texto, para facilitar a leitura).

SOLIDARIEDADE

Jota A.



Gilmar.

QUO VADIS


J Bosco.

A ANATOMIA DA GNOSE


Como escapar da Matrix: 10 definições de "gnose" através do cinema

Por Wilson Ferreira

Desde os clássicos filmes gnósticos “Show de Truman” e “Matrix” a espécie humana é representada como prisioneira em uma gigantesca ilusão cósmica – tecnológica, psíquica ou midiática. Como escapar dela? Para o Gnosticismo, através da “gnosis” (“conhecimento”). Mas que tipo de conhecimento é esse? Uma epifania místico-religiosa? Algum tipo de comunhão secreta com o Divino? Iluminação espiritual? O Cinegnose reuniu dez definições de estudiosos sobre o conceito de “gnose” e como os filmes gnósticos figuram essa espécie de rota espiritual de fuga: quem éramos, o que nos tornamos, onde estávamos, para onde fomos lançados, para onde estamos indo, do que estamos libertos, o que é o nascimento e o que é renascimento.
....


Após sete anos de atividades, esse humilde blogueiro percebeu uma séria lacuna no trabalho do Cinegnose em mapear os filmes gnósticos na atual produção cinematográfica.

Encontramos nos filmes a articulação dos diversos temas gnósticos como o Mito de Sophia, o Mal, a Queda, estados alterados de consciência (paranoia, suspensão e melancolia), o homem prisioneiro numa ilusão, o Demiurgo, o sono, Esquecimento, a memória, Alquimia entre outros.

Porém, um tema foi, por assim dizer, esquecido ou colocado entre parêntesis: a gnosis. Claro que nas análises sobre os filmes gnósticos (clique aqui para ver a nossa lista), o tema foi abordado de forma sub reptícia – o mal estar, estranhamento e alienação do protagonista diante da inautenticidade (a ilusão) do mundo, os estados alterados de consciência (que dão os três protagonistas-chave: o Viajante, o Detetive e o Estrangeiro) e finalmente a quebra da ilusão que mantinha o personagem no sono do esquecimento e prisioneiro.

Mas ainda assim, essas são apenas as condições que propiciam a gnosis. Mas o que é a gnose? Algum conhecimento arcano secreto? Uma epifania místico-religiosa? Algum tipo de comunhão secreta com o Divino? Iluminação espiritual?

Tomada literalmente, quer dizer “conhecimento”. Como veremos, há várias definições proferidas por diversos pesquisadores e adeptos do Gnosticismo. Apesar das diferenças, há um ponto comum: gnose não se confunde com o simples conhecimento acadêmico, erudição ou cultura intelectual – “conhecimento revelado” ou “conhecimento divino”.


Grosso modo, no Gnosticismo há três abordagens sobre a gnosis: (a) para os gnósticos antigos, a gnose não era apenas a iluminação, mas existia no âmbito da Cosmologia, do mito e da antropologia – viria acompanhada de uma compreensão expressa nos Resumos de Teódoto de Bizâncio: "quem éramos, o que nos tornamos, onde estávamos, para onde fomos lançados, para onde estamos indo, do que estamos libertos, o que é o nascimento e o que é renascimento".

(b) Para o gnosticismo setiano (anterior ao cristianismo) a mente de Deus teria sofrido um colapso e perdido a sabedoria (também conhecida como “Aeon Sophia”). Devido a essa crise, Sophia decaiu no vazio caótico, nas emoções especulativas e eventualmente no mundo material, dando à luz o “Demiurgo” (Yaldabaoth) que se livra de Sophia e cria um cosmos imperfeito, imitação do Divino. E cria o homem, prisioneiro na sua criação.

Por isso o homem seria “um deus em ruínas”. Para os setianos, o aperfeiçoamento das próprias mentes (a gnosis) restauraria a solidez da própria mente de Deus – Deus precisaria de nós tanto quanto precisamos dele para curar um cosmos fraturado.

(c) Gnose como “autoconhecimento”. Mas um autoconhecimento que não se confunde com o ideário atual da “autoajuda” – enquanto esta reforça o ego para o sucesso, na gnose é revelado ao homem um caminho interior que não pode ser compreendido e nem seguido pelos poderes do ego. O encontro da centelha espiritual interior que nos reconecta com a Divindade, fazendo-nos compreender que somos exilados de um plano além desse cosmos físico.

Se na autoajuda procuramos o caminho da adaptação (imanência), na gnose experimentamos a transcendência.

O Cinegnose apresenta 10 definições de especialistas e alguns filmes gnósticos que ajudam a ilustrá-las.


1. Elaine Pagels – Os Evangelhos Gnósticos, 2006.


Gnosis não é conhecimento, principalmente racional. A língua grega distingue entre o conhecimento científico ou reflexivo (“Ele sabe matemática”) e aquele através da observação ou experiência (“Ele me conhece”). Poderíamos traduzir como “insight”. A gnose envolve um processo intuitivo de conhecer a si mesmo. No entanto, conhecer a si mesmo, no nível mais profundo, é conhecer a Deus; este é o segredo da Gnose.

Filmes: 


Revólver (2005) – a jornada interior do protagonista que descobre que o seu maior inimigo é o próprio ego; A Passagem (2005) – um misto de jornada interior pelo psiquismo e a travessia de um purgatório entre a vida e a morte. Clube da Luta (1999) – para o protagonista, a luta é a melhor forma de conhecer a si mesmo. Silenciando o corpo (mesmo através da porrada) abrimos a mente para insights.


2. Gilles Quispel – Gnostic Studies, 1974


Atravessar o inferno da matéria e o purgatório da moral para chegar ao paraíso espiritual.

Filmes: 


Dead Man (1995) – na companhia de um xamã, Johnny Deep faz jornada espiritual no oeste americano, conhecendo o inferno dos homens, atravessando o purgatório indígena até uma canoa levá-lo através de um rio espiritual; El Topo (1973) – outro western espiritual, agora do diretor Alejandro Jodorowsky. Tal como um toupeira, o protagonista escava um túnel no meio de simbolismo e alegorias religiosas e esotéricas e em meio à violência dos homens. Para chegar à superfície e encontrar a luz do Sol e espiritual; After Death (2015) – um grupo de jovens chega a uma espécie de antessala entre o Céu e o Inferno.

3. Bart Ehrman – Voices of Gnosticism, 2010


No caso do gnosticismo, gnosis é a própria base da salvação. Através da revelação da Gnose a pessoa é despertada da ignorância, do sono, ou embriaguez. São várias metáforas que são usadas para o estado do ser humano antes de receber a gnosis. Uma vez que a gnosis é revelada a essa pessoa, é aceita por ela mesma. É, em última análise, a base para a integração no mundo do divino a partir do qual essa pessoa se originou. Uma das características essenciais da gnosis em termos de conteúdo é que o conhecimento que salva é o conhecimento de que o mundo em que vivemos não é o mundo eterno e nossos seres mais íntimos são divinos e consubstanciados com um ser divino que está além do mundo e que, finalmente, não foi responsável por sua criação. 

Filmes: Cidade das Sombras (Dark City, 1998) – Um homem acorda sem memórias e preso num mundo cenográfico criado por demiurgos alienígenas; O Homem Que Incomoda (2006) em uma estranha cidade onde cada pessoa parece estar estranhamente satisfeita com a sua vida, um visitante chega (ele não sabe como parou ali) e passa a levantar questões sobre tudo e todos;  Show de Truman, 1999 – a descoberta de que o mundo no qual o protagonista vive não é “eterno”, mas um reality show no qual é prisioneiro. E que o seu “carisma” e “brilho” nada têm a ver com aquele mundo ilusório.


4. Stephan Hoeller – Gnosticism: a New Light on the Ancient Tradition of Inner Knowing, 2002.


Saber salvífico, chega intuitivamente, mas facilitado por vários estímulos, incluindo o ensino dos mistérios trazidos aos seres humanos por mensageiros da divindade de fora do cosmos.

Filmes: 


O Décimo Terceiro Andar (1999) – programadores de games de simulações descobrem que personagens virtuais tornam-se sencientes, apontando para a possibilidade do nosso cosmo ser também uma simulação no interior de outra simulação; Matrix (1999) – Neo se aprofunda na sabedoria de Morpheus e nos códigos fonte da Matrix para descobrir o deserto do real fora do seu próprio mundo.

5. Richard Smoley – Forbidden Faith: The Secret History of Gnosticism, 2006.


O despertar cognitivo da gnose é geralmente um processo gradual, em vez de uma única visão, transformadora. Nesta libertação do verdadeiro “eu” do mundo o comportamento moral não é relevante; mas pode facilitar - torna mais fácil de amar os outros seres humanos, porque liberta-o do egoísmo e das agendas ocultas.

Filmes: 


Vidas em Jogo (The Game, 1997) – Um rico banqueiro é submetido involuntariamente a um role-playing game que acaba libertando-o do seu egoísmo; Virei um Gato (Nine Lives, 2016) – o leitor pode ficar surpreso com a citação desse filme, familiar e pueril, um clássico de Sessão da Tarde. Porém, por trás de camadas de clichê de comédia popular há uma jornada de transformação íntima e “salto de fé” – um homem rico e famoso que conhecerá o valor moral do sacrifício e compaixão.


6. Carl Jung – Psicologia e Religião.


Gnosis, como tipo especial de conhecimento, não deve ser confundido com o Gnosticismo.

Filmes: 


Narrativas niilistas e ateias como em The Man From The Earth (2007, ceticismo e desconstrução da religião e da ciência sem qualquer lição metafísica ou teológica), O Novíssimo Testamento (2015, Deus morreu porque se tornou inútil) e Teorema Zero (2013, Deus escreve através de linhas tortas o caminho da sua própria negação) de Terry Gilliam, provam que a gnose não é nem uma religião e, muito menos, propriedade do Gnosticismo. Filmes agnósticos que figuram protagonistas incapazes de prover quaisquer fundamentos para a existência de Deus, sentido ou propósito para a existência. Paradoxalmente, propiciam gnose e transformação.

7. Andrew Philip Smith – A Dictionary of Gnosticism, 2009.


Conhecimento direto do divino, no qual se oferece a salvação. Para os antigos gnósticos, gnosis existia no âmbito da cosmologia, mito, antropologia e práxis utilizadas dentro de seus grupos. A gnose não era apenas a iluminação, mas foi acompanhada por um entender, tal como expresso no Trecho de Teódoto, de “quem éramos, o que nos tornamos, onde estávamos, para onde fomos lançados, para onde estamos indo, do que estamos libertos, o que é o nascimento e o que é renascimento”.

Filmes: 


Todas narrativas AstroGnósticas (aproximar a jornada humana na Terra com a jornada de aliens errantes; ou descobrimos que os seres humanos na verdade descendem de enxertos de DNA alienígena nos primatas ou simbolicamente a condição humana é comparada a de extraterrestres ameaçados ou corrompidos pela sociedade humana) se encaixam nessa definição de gnose: O Homem Que Caiu na Terra (1976), Earthling (2010) ou mesmo E.T. O Extraterrestre (1982).

Além dos filmes que abordam a questão da reencarnação do ponto de vista gnóstico: a prisão do esquecimento a cada “renascimento" – Quero Ser John Malkovich (1999), The Scopia Effect (2014), Enter The Void (2009).


8. Nicolas Denzey Lewis – Introduction to Gnosticism: Ancient Voices, Christians Worlds, 2013.


Palavra grega para conhecimento; um conhecimento específico das próprias origens divinas no qual o caminho para a salvação vem por meio do autoconhecimento.

Filmes:


Mais filmes sobre autoconhecimento – na jornada xamânica induzida por estados alterados de consciência em Blueberry: Desejo de Vingança (2004); e o autoconhecimento e transformações íntimas por processos alquímicos como em Beleza Americana (1999), na série Breaking Bad (2008-2013) e Fonte da Vida (2006) de Darren Aronofsky.

9. Stuart Holroyd – The Elements of Gnosticism, 1994.


Desconhecimento e ignorância mantêm  o homem sob o encalço dos Arcontes; somente o conhecimento (gnose) pode libertá-lo: o conhecimento do Deus transcendente e da divindade interior, e também o conhecimento da maneira de combater ou enganar os Arcontes e permitir a alma alcançar a reunião que anseia. Este conhecimento salvífico não pode ser descoberto no mundo, o reino das trevas. Ela deve vir do reino da luz, concedida quer por revelação (ou iluminação) ou trazida por um mensageiro, um salvador transcendente.  

Filmes:


Os Arcontes são seres hostis e malévolos criados pelo Demiurgo para manter a ilusão do mundo seduzindo o homem através da religião consoladora, o hedonismo e a racionalidade. Filmes como Agentes do Destino (2011, onde Arcontes são agentes de um jogo cósmico no qual o homem é um fantoche), Demônio de Neon (2016, o hedonismo como arma dos arcontes para seduzir a humanidade) ou Lost River - 2014, no qual um gerente de banco (endividamento) e capangas violentos são agentes de um sistema corrupto que mantém protagonistas presos a uma cidade decadente.


10. Birger Pearson – Ancient Gnosticism: Traditions and Literature, 2007.


O objetivo do gnóstico é ser salvo da prisão cósmica existente e para ser restaurado o reino da luz a partir do qual o ser humano verdadeiro  auto originou. Gnosis fornece os meios para alcançar este objetivo e assegurar a passagem da alma, após a morte, de volta a Deus. Uma vez que o processo de libertação for concluído, que é quando todos os eleitos são resgatados,  o mundo material ou será aniquilado ou ficará sujeito à escuridão eterna. A escatologia gnóstica é, basicamente, uma reinterpretação da escatologia bíblica e judaica padrão. 

Filmes: 


Após a morte deveríamos voltar a “Deus”, ou escapar dessa prisão cósmica e retornarmos à nossa antiga morada – o Pleroma. O Terceiro Olho (The I Inside, 2004) mostra essa gnose pós-morte como forma de escapar da reencarnação que nos condena ao esquecimento, mantendo o loop cósmico. Uma prisão cosmológica na qual nem a morte é capaz de nos libertar, como aborda o filme The Discovery (2017).

(Fonte: Cinegnose - aqui).