quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

DA SÉRIE A INDÚSTRIA DA DELAÇÃO PREMIADA, PARTE 15

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Para ler a parte 14, clique AQUI.
Muitas abordagens 'blogosféricas' (e poucas da mídia corporativa)  foram feitas sobre o depoimento - com praticamente quatro horas de duração - do senhor Tacla Durán (AQUI) à CPMI da JBS.  Cumpre lembrar que o que se tem sobre a matéria, até o momento, são acusações graves, porém carentes de investigação/comprovação, o que poderia ocorrer num estágio seguinte, a cargo da parte oposta, que, no entanto, se mantém silente desde a data do depoimento, 30 de novembro. É justamente o contrário do que o bom senso e o senso de justiça estão a recomendar: que alguma instância se manifeste. Administradores e fiscais da Lei não poderiam comportar-se de modo indiferente diante de conteúdo tão forte. Nesse sentido, aliás, poderá soar sintomático o fato de o TRF4 haver marcado, para o dia 24 de janeiro próximo, o julgamento do recurso interposto pelo ex-presidente Lula a propósito de sua condenação pelo juiz Sergio Moro...
À parte 15, então:
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Dentro da série sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM, um vídeo de Joaquim de Carvalho, analisando declarações de Tacla Durán, na CPMI, que envolvem o primeiro amigo de Moro, Zucolotto e suas ações como advogado de ligação. Outras matérias da série podem ser vistas aqui.



Exclusivo: Tacla Durán x Sergio Moro - Zucolotto apaga os rastros

(Joaquim de Carvalho/Luis Nassif)

Na série especial "A indústria da delação premiada", uma parceria entre Jornal GGN e DCM - Diário do Centro do Mundo, Joaquim de Carvalho aborda o depoimento de Rodrigo Tacla Durán na CPMI do Congresso. O advogado, que Sergio Moro quer esquecer que existe, dá as coordenadas para a Comissão da atuação de Zucolotto, primeiro amigo do juiz de piso.

Tacla Durán, na CPMI, relatou episódios envolvendo Zucolotto, situações graves que merecem uma investigação cuidadosa, pois que configuram crime.

Joaquim relata parte de sua conversa com Tacla Durán, em Madri, que dá corpo às declarações na CPMI.

(Para ver os vídeos, clique AQUI). 

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Notas

a) Pedimos desculpas pelo fato de não saber 'transportar' vídeos da 'fonte' para este blog; 

b) Vale a pena ler os comentários dos leitores, na 'fonte'. São bastante interessantes;

c) Para inteirar-se sobre o que ocorre acerca dos recibos de aluguéis do famigerado apartamento tríplex do Guarujá, clique AQUI para ler "Laudo pericial confirma que aluguéis são autênticos e que foram emitidos em oportunidades diversas".

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

JERUSALÉM: CORREÇÃO

               "Jerusalém não é a capital de Israel nem da Palestina.
               Ela é a minha Capital!"

Marian Kamensky. (Áustria).

ECOS DE: BRASILEIROS VIVEM LONGE DA REALIDADE DOS FATOS

                    (Clique na imagem para ampliá-la)

"A organização de pesquisa de mercado Ipsos Mori, uma das maiores do Reino Unido, publicou seu relatório anual de 2017 (5/12) sobre a percepção pública das populações de vários países do planeta sobre temas presentes na vida pública e na imprensa internacional, como terrorismo, criminalidade, gravidez de adolescentes, imigração e presença nas redes sociais. A ideia é por a teste a capacidade de diferentes grupos sociais em distinguir fatos concretos de suposições sem comprovação. ..."

(Pata ler "Pesquisa inglesa informa que brasileiros vivem longe da realidade dos fatos", por Sérgio da Motta e Albuquerque, clique AQUI).

ESTE BRASIL


Este Brasil

Por Jânio de Freitas

Ninguém, parece mesmo que ninguém, tenta pensar o Brasil em seu pleno sentido e em seus possíveis amanhãs. É um país sem estratégia, sem ideia do que é e conviria vir a ser no mundo. Na grande tecitura internacional, não vive do que faça para uma inserção desejada, mas do que cada dia lhe traz. Segue adiante porque os dias se sucedem. Condicionado integralmente pelo mundo exterior, perplexo, lerdo, segue.

Com uma gama invejável de minérios, tantos outros recursos e grandes necessidades de consumo, nunca teve uma política industrial. País de latifundiários e fazendeiros, suas políticas agropecuaristas são mera distribuição discricionária de dinheiro e privilégios, de uso à vontade. E nem isso, para uma ciência coordenada com objetivos nacionais e contingências externas.

É difícil pensar um país assim. É difícil pensar mesmo o Brasil atual, o país de hoje. Já a partir do mais grotesco e rudimentar na situação imediata: como explicar, por exemplo, o convívio familiar entre a empolgação generalizada com os êxitos contra a corrupção e, de outra parte, a tolerância indiferente com a Presidência da República ocupada e usada por um político acusado de corrupção, formação de quadrilha, obstrução de justiça, e salvo de processos mediante a corrupção de deputados com cargos e verbas do Orçamento?

Presidência povoada por notórios como Moreira Franco, marginais como Geddel Vieira Lima, acusados como Eliseu Padilha, e deputados, senadores e ministros com lastros semelhantes na polícia e na Justiça?

É difícil pensar um país assim, capaz de contradição tão corrosiva.

Mas esse país é o da contradição em que militares americanófilos e a classe dominante deram um golpe em nome da democracia e por 21 anos aprisionaram a nação na ditadura. Muitos dos artífices dessa contradição ali completavam uma outra, de que foram parte quando em 1945 derrubaram o Getúlio para o qual deram um golpe e impuseram uma ditadura.

Convertidos à democracia, como diziam, em sua pequena convivência com oficiais americanos na Itália da Segunda Guerra, os derrubadores de Getúlio ajudaram a entrega do poder, por via de "eleição democrática", ao general que sustentou a ditadura até a queda. A vasta fraude que contribuiu para o resultado eleitoral, movida pelos "coronéis" do interior, foi silenciada a pretexto de não se desmoralizar a primeira eleição da "democracia".

Contradição em cima de contradição. O normal no país em que os primeiros bafejos de democracia vieram de uma ditadura, com a legislação social de Getúlio –inclusive as Leis Trabalhistas agora estupradas.

É difícil desenvolver a compreensão desse Brasil, tão inculto, tão controvertido, tão amalucado. Esse Brasil exultante com as ações contra a corrupção e indiferente à ocupação de sua Presidência por uma declarada quadrilha de corruptos.

O Brasil é você. O Brasil somos nós.  

(Fonte: Folha de S Paulo; postagem reproduzida pelo Jornal GGN - aqui).

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Este Brasil!

ADEUS ÀS ARMAS


Tacho.

ADEUS ÀS ARMAS


J Bosco.

DISCORRENDO SOBRE ABUSOS MIDIÁTICOS E OUTROS ABUSOS

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Antes, um registro: há tempos, estaria a aguardar julgamento do STF um pedido de 'decretação' de inconstitucionalidade da condução coercitiva nos moldes exercitados pelas autoridades da Lava Jato, ou seja, a condução forçada - "de supetão", "debaixo de vara" - do cidadão para depoimento, quando a lei e a doutrina preveem que ela só pode acontecer na hipótese de o investigado deixar de atender a uma primeira convocação. Consta que a matéria teria sido pautada, mas, estranhamente, jaz adiada sine die. Enquanto isso, a mídia encara as "conduções" como procedimentos plenamente normais...


Abusos e amadorismo da mídia para cobrir as truculências da Polícia Federal

Por Luis Nassif

Paula Cesarino Costa é uma ombudsman à altura dos melhores que a precederam, como Marcelo Beraba e Mário Magalhães.
Sua crítica de hoje, ao espaço dado às operações policiais contra Universidades permite levantar uma característica não muito nova, mas que se estratificou nos últimos anos: a incapacidade dos jornais de se renovarem. Nos programas de qualidade existe o método PDCA, ou Planejar, Fazer, Checar e Agir. Trata-se do bê-a-bá da qualidade.
Os jornais, que tratam a questões da eficiência, da qualidade como palavras mágicas, são incapazes de reavaliar procedimentos básicos. No caso, como se comportar ante uma denúncia da polícia.
Desde o caso Escola Base já se sabia do risco de se fiar na palavra de um delegado - ou de um procurador, ou de um juiz, ou de um repórter quando acha que conseguiu o grande furo.
Nos últimos anos, com a disseminação das forças tarefas, da operação-espetáculo, a submissão à versão do policial se tornou uma epidemia.
Explica o editor de “Cotidiano: “a cobertura segue o mesmo critério jornalístico de outras ações policiais e não há adesão a qualquer campanha. Publicamos o fato, as alegações da corporação e os outros lados dos citados".
Evidente que há um conjunto de falhas na cobertura.
Fossem empresas do setor moderno da economia, os jornais procederiam ao PCDA desse processo de cobertura de operações policiais.
A incapacidade de relativizar denúncias
É ampla a  incapacidade da imprensa de relativizar episódios. É só conferir o discurso dos jornalistas econômicos da Globo sobre o fim de recessão, com a economia no fundo do poço. A economia estava em 10. Caiu para 2 e subiu para 2,1. Todos os comentários salientam a recuperação, sem qualificá-la: a intensidade, a comparação do PIB com o de pré-crise etc.
É como se uma recuperação de 4% tivesse o mesmo significado de outra de 0,1%.
No campo penal, é pior. Todos os crimes são tratados da mesma maneira, seja um desvio de verba, uma irregularidade administrativa ou a alta corrupção. Essa ignorância da mídia acaba se espraiando por toda a sociedade, ajudando a consolidar o espírito de linchamento cada vez mais presente.
A apuração da denúncia
Segundo o editor, o repórter publica a denúncia e ouve o outro lado. A polícia falará genericamente em desvios. Para valorizar a manchete incluirá o valor total do empreendimento como se fosse desvio. E só. Não há um detalhe sobre a natureza do objeto investigado.
Principalmente porque nesses tempos bicudos de abusos policiais, as vítimas sequer sabem do que estão acusadas.
No caso da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) só depois do suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier apareceram as informações de que não havia nenhuma espécie de envolvimento dele com os fatos denunciados. A ficha do delator apareceu apenas nas reportagens dos Jornalistas LIvres, não dos jornalões. E os abusos da delegada Erika Marega apareceram apenas nos sites e blogs independentes. Mesmo tendo torrado dinheiro público para transportar 120 policiais para deter 8 pacatos professores universitários.
No caso da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), tome-se a sentença da juíza Raquel Vasconcelos Alves Lima, que articulou com a Polícia Federal a invasão.  A sentença vazou apesar do processo ser considerado sigiloso. Lá se fala em organização criminosa e apresenta como um dos crimes a distribuição de bolsas. Diz que o crime é suficientemente grave para justificar a condução coercitiva. E a mídia aceitou normalmente, porque no pé da matéria, escondido, havia algum outro lado negando sabe-se lá o que.
Ora, um mínimo de discernimento mostraria o ridículo dessa armação, de uma perigosíssima quadrilha que desviava dinheiro para bolsas de estudo.
Em nenhum momento, os jornalistas procuraram entender a natureza do trabalho denunciado. Nem se preocuparam em checar o ridículo da acusação com a juíza ou os delegados.
Pior. Havia a informação de que o Ministério Público Federal (MPF) de Minas Gerais considerou abusivas as ordens de condução coercitiva. Mas não se procurou um procurador para apresentar suas razões.
Coube a portais alternativos - como o GGN - apurar a armação da juíza com os delegados, visando impedir os procuradores de segurar a condução coercitiva.
Um Manual de Bom Jornalismo 
O que se tem claramente - do mesmo modo que nos episódios da Escola Base e Bar Bodega - são repórteres policiais comendo nas mãos de policiais repórteres, juízes delegados, e procuradores juízes.
Se se quiser praticar um mínimo de jornalismo, há que se seguir um conjunto de princípios da boa técnica:
Toda declaração de delegado é, em princípio, suspeita. O delegado é um vendedor do seu trabalho, assim como o repórter pretendendo emplacar a manchete.
O último veio descoberto pelas milícias de Estado é a criminalização de procedimentos administrativos nas Universidades. Se se quiser impedir o transbordamento do arbítrio e praticar um jornalismo minimamente decente, os jornais deveriam orientar seus repórteres na seguinte direção.
  1. Nunca confiar na palavra do delegado. A informação é ponto de partida. A delegada Erika é responsável pelo suicídio de uma pessoa meramente porque pretendeu turbinar uma operação corriqueira, de suspeita de desvio de recursos.
  2. Não se fiar nas conclusões do despacho do juiz, se não vier acompanhado de elementos de provas.  O despacho que autorizou os abusos na UFMG não foi questionado em nenhum ponto pela mídia, mesmo quando apresenta como prova da organização criminosa a concessão de bolsas.
  3. Procurar qualificar a natureza do suposto crime que está sendo apurado. Na burocracia pública, desvios de verba nem sempre são indicativos de corrupção. Podem ser recursos remanejados de um lugar para tapar buracos em outro. Enquadram-se no campo das irregularidades administrativas, sujeitas a multas pecuniárias. Mas não são crimes de corrupção.
  4. Se não tiver discernimento, o repórter deve ouvir especialistas para analisar a dimensão da operação, ante o crime tratado. Por exemplo, supostos desvios de verbas podem ser apurados nos registros da Universidade, do Ministério que liberou as verbas. A condução coercitiva só se justifica quando há riscos do acusado ser alertado e eliminar provas. Se são ilícitos administrativos, e se são convidadas a depor pessoas sem suspeita direta, nada justifica a violência.  -  (Fonte: aqui).
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Sugestão de leitura:
"Após três anos de Lava Jato, ministro do STF toma atitude contra vazamento" - clique AQUI -, em que o Jornal GGN focaliza matéria do jornal O Globo sobre o assunto. Três anos! Pior, só a falta de providências contra as conduções coercitivas lavajatenses.

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Registro

Alguns veículos da mídia corporativa relataram (e cobraram as providências corretivas devidas, como Elio Gaspari) os fatos que culminaram na morte do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier de Olivo, submetido a suplício brutal, conforme sustentamos na série "A morte do reitor Cancellier: esquecimento, não" - AQUI.

Como seria de esperar, eis que a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) emitiu nota de repúdio às manifestações contra fatos relacionados à Operação Ouvidos Moucos (AQUI), exatamente a que fluía quando do suicídio de Cancellier. 

A Constituição da República assegura o direito à livre manifestação, razão por que nos permitimos dizer que o caminho mais conveniente a seguir é o de aguardar os resultados das investigações acerca dos fatos, as quais, esperamos, irão desenvolver-se plenamente - e com a indispensável isenção -, no âmbito do Ministério da Justiça, se é que é razoável esperar-se isso em tempos tão confusos.

A CRISE NÃO DÁ TRÉGUA (II)


Bira.

DURÁN CHEGA À IMPRENSA EQUATORIANA

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As revelações do senhor Rodrigo Tacla Durán à CPMI da JBS - AQUI - não obtiveram repercussão na mídia brasileira. 'Sintomaticamente', aliás, a sessão da CPMI em que o advogado prestou depoimento ao longo de quatro horas foi mostrada pela internet - aqui -, visto que as TVs Câmara,  Senado e GloboNews lhe negaram espaço. Mas, como diria o outro, que ela existiu, existiu. E ao menos a mídia periférica - como a equatoriana - parece ter vislumbrado importância jornalística. Há quem diga que Tacla Durán, por seus antecedentes, não merece crédito. Pode ser. Mas, diante de tantos episódios, digamos, curiosos observados nos últimos anos, a alegação soa um tanto contrassensual.


Jornal equatoriano divulga acusações de Durán sobre indústria da delação

"Ex-colaborador da Odebrecht afirma que delações foram falsificadas para prejudicar políticos", anunciou o Ecuador Inmediato, jornal online equatoriano. O portal repercutiu no país latino, nesta segunda-feira (11), uma publicação do Valor Econômico sobre as últimas acusações do advogado Rodrigo Tacla Durán: "o ex-operador financeiro da Odebrecht acusou as autoridades da Operação Lava Jato de promover 'delações a la carte'", divulgou.
O diário afirma que as táticas dos investigadores da força-tarefa do Paraná tinham como objetivo "incriminar políticos e autoridades". Duran contou que negociou um acordo de delação premiada com autoridades, entre eles Sérgio Bruno, coordenador da força-tarefa da Procuradoria-Geral da República (PGR), durante a gestão de Rodrigo Janot, e também com Marcelo Miller.
"[Durán] mencionou que quando esteve com Marcello Miller, o então procurador teria listado, nome por nome, alguns parlamentares e autoridades e perguntado ao advogado: 'Qual deles você conhece, o que você pode entregar?'", reproduziu Ecuador Inmediato.
jornal equatoriano também informou que Tacla Durán percebeu que havia uma acusação do Ministério Público contra ele para obter a confirmação de alegações. Em troca, Durán teria que confirmar casos, para que fossem fechados "somente com a delação premiada, sem comprovação dos fatos, sem investigar, sem levantamentos".
"'Esse é o sentido da indústria da 'delação', disse o advogado", completou o diário, que também elencou a relação com Carlos Zucolotto, apontado pelo jornal como "padrinho de casamento do juiz Sergio Moro", para negociar o acordo de Durán. Zucolotto teria oferecido a ele uma redução dos US$ 15 milhões para US$ 5 milhões da multa que seria imposta, mas o advogado teria que pagar mais US$ 5 milhões em honorários advocatícios, "por fora", destaca a matéria.
Em resposta, o ex-procurador e advogado Marcello Miller negou, em nota, as acusações de Durán e disse que o advogado é "antes de tudo, um criminoso, que a pretexto de exercer a profissão de advogado, delinquiu grave e repetidamente".  -  (AQUI).

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

VEM AÍ A NOVA LEI: A GANÂNCIA FAZ A CAMA DA TERCEIRA IDADE


Sinovaldo.

DO ESTADO POLICIAL


Estado policial, porta de entrada do inferno

Por Reginaldo Moraes

Algo de muito grave ocorre no Brasil. Não falo apenas – apenas? – de tremendos retrocessos sociais, regressão econômica ou cultural. Se isso não fosse suficiente para nos alarmar, a desagregação das instituições de Estado avança rapidamente – ameaçando a existência daquilo que se chama de nação.
Faz cem anos, o liberal Max Weber definia o Estado a partir do monopólio da coerção legitima. De outro lado do muro, o revolucionário Lenin dizia que o Estado era, em suma, uma rede de tribunais, prisões, polícia. Os dois tinham diante de si, para teorizar, o Estado da época – não muito mais do que repressão organizada, monopólio da lei, da ordem e da defesa. Pouco mais do que espada.
O Estado mudou ao longo do século XX, mas as "forças da ordem” seguem sendo sua espinha vertebral. Até mesmo as políticas sociais e regulatórias podem ser vistas, tantas vezes, como uma forma enviesada de vigiar e punir.
Pois é essa espinha vertebral que parece, agora e aqui, atingida por uma doença letal. Faz algum tempo, promotores, juízes e delegados ensaiam movimentos que colocam em dúvida sua identidade. Delegados que dirigem investigações de impacto e ao mesmo tempo se permitem agitação eleitoral explícita. Bem, talvez se pudesse atribuir o descuido à polarização eleitoral. Acontece. Só que não. Um outro se põe  na berlinda escandalizando o país (e o mundo) com a afirmação singela de que a carne industrializada continha veneno – vitamina C. O nome da operação – Carne Fraca – transformou-se no seu objetivo não deliberado. Até hoje a carne brasileira é vista com suspeição no mercado internacional. O delegado trapalhão foi posto na geladeira. Seus modos, porém, seguem procriando.
Mais recentemente, uma delegada visivelmente desequilibrada e ansiosa por demonstração de poder, manipula informações e induz uma juíza, essa também visivelmente apressada, a promover um espalhafato grotesco e de trágicas consequências, com o suicídio de um reitor de universidade acossado por uma matilha de cães.
Passa algum tempo e a cena se repete, também com espalhafato e requintes de truculência, se assim podemos dizer. A Universidade Federal de Minas Gerais é exibida, em operação tosca, como antro de perversões, poucos dias depois de ali se ter realizado um protesto contra a pantomima de Florianópolis.
Mas seria fastidioso listar e descrever as manifestações da praga. Como o estrelismo de um juiz que se faz fotografar portando fuzil e com pose de justiceiro, filme B de uma hollywood suburbana.
Mas estas cenas, por enquanto, parecem ocorrer em círculos até mesmo favorecidos da escala social. A cena seguinte, igualmente desmoralizante, ocorre em outro quadrante. Ouço no bar a notícia de que o chefe do tráfico da Rocinha fora preso por uma ação combinada das polícias Civil, Militar e Federal, da Guarda Nacional e das Forças Armadas. Só faltou a guarda suíça do Vaticano. Surpreendente que alguém ache que o tráfico seja mesmo comandado por alguém como ele, num barraco do morro. E mais surpreendente que seja necessário essa conjunção de estrelas para capturá-lo. Seria mais razoável verificar a movimentação de algumas contas bancárias. Porém chego em casa e me espanto ainda mais com as imagens do pós-combate. Policiais se fazendo fotografar ao lado da estrela presa. Uma polícia feminina faz uma selfie com o astro capturado. Lembro-me da letra do funk: “Ela não anda, ela desfila, tira foto para botar no facebook”. É a isso que se reduz o braço da lei?
Nos andares inferiores da sociedade, aqueles com os quais em geral menos nos incomodamos, já é usual ver esse comportamento. Pouca gente se incomoda – muita gente aprova – que a polícia invada barracos aos pontapés, sem mandado e tantas vezes sem outro motivo senão demonstrar a própria forca. Pode demonstrar a força, mas desmancha a autoridade. Deixa de ser vista como a ordem legitimada e passa a ser igualada aos seus adversários (aparentes?), os criminosos.
Quando indivíduos e mesmo frações organizadas dentro das corporações de segurança assim se comportam, eles não erguem a imagem dessas corporações. Eles a rebaixam. O resultado dessa escalada é a desintegração das instituições da ordem – espinha dorsal do Estado. A quem interessa que um Estado se desmanche e uma nação se desfaça? A quem aproveita? – perguntam os advogados quando diante de um crime sem culpado à vista.
Os personagens desses atos estapafúrdios podem ser movidos pela sua imaturidade, pela sua ambição desmedida, apenas isso. Ou não. De qualquer modo, com esses atos não promovem a lei. Eles a lançam na sarjeta e no pântano. E ali, ela é disputada pelos crocodilos. Crocodilos que falam – ou não – o idioma nacional. São eles que espreitam, sombrios, salivando para abocanhar o que sobra da operação de desmanche.
A reversão desse processo exige bem mais do que agentes salvadores – fardados ou não. Um “resgate” dessa natureza seria aprofundar o mal. O quadro exige um reencontro da nação consigo mesma – reorganizando o pacto de convivência em condições mais justas e equilibradas, menos vulnerável ao desespero e à incerteza. Um pacto tutelado foi constituído sob o medo da chamada transição politica. Esse ciclo revela seu limite.
É preciso um esforço de cidadania, se não quisermos voltar à condição de colônia ou ao estatuto de terra de ninguém e, portanto, alvo de todos os abutres do mundo. Na história contemporânea processos como esses costumam ser chamados de Assembleias Constituintes. O Brasil foi descoberto há pouco mais de 500 anos. Precisa ser refundado. Não por acaso, nem por vontade de um rei. Por uma decisão soberana, do único soberano aceitável em uma democracia.  -  (Fonte: aqui).

PREÇO DA GASOLINA AVANÇA COM GOSTO DE GÁS

S Salvador.


Duke.

O MALABARISTA


Kap. (Espanha).

JERUSALÉM, TRUMP E O MUNDO ÁRABE


Decisão de Trump sobre Jerusalém pode unir todo o mundo árabe contra os EUA

Por Patrick Cockburn

13/10/2016: "UNESCO declara Israel 'potência ocupante' em Jerusalém" - Washington Time
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O presidente Trump e o governo de Israel com certeza previram, mas subestimaram, o "dia de fúria" palestina, com protestos de muçulmanos em todos os cantos do mundo, na sequência do 'reconhecimento' de Jerusalém, pelos EUA, como "capital de Israel" e planos de transferir para lá a embaixada dos EUA. Com certeza entendem que a fúria logo se dissipará, porque aliados dos EUA, como os governantes da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito se darão por satisfeitos com breves protestos formais, e os palestinos são fracos demais para qualquer coisa além de manifestações que nada mudam.
EUA e Israel podem ter errado gravemente nessas avaliações: quando vivi em Jerusalém aprendi que muitos eventos dramáticos em Israel, como tiroteios e bombas, quase sempre têm repercussão interna muito menor do que o mundo externo poderia esperar. Mas qualquer coisa, seja o que for, que envolva diretamente Jerusalém, e sobretudo os lugares santos dos muçulmanos que lá estão, sempre tem impacto muito maior do que alguém que viva longe de lá possa imaginar.
A consequência imediata da ação de Trump é que os EUA se tornam ainda mais fracos, porque tomaram mais uma iniciativa que absolutamente todo o mundo desaprova. Uma superpotência no auge do próprio poder poderia talvez insistir nesse movimento. Mas não os EUA de hoje, politicamente divididos, cuja influência está em maré vazante na sequência dos fracassos militares no Iraque e no Afeganistão [e na Síria! (NTs)]. O movimento de Trump é tão obviamente contrário aos interesses da política externa dos EUA que acabará por convencer outros líderes mundiais de que Trump é aliado impossível.
Mas o movimento pode ter também outras consequências perigosas. Há um mito segundo o qual a luta israelenses-palestinos seria questão distante das preocupações de Osama bin Laden ou que não tenha tido qualquer influência na ascensão da al-Qaeda. Verdade é que os discursos e escritos de bin Laden estão cheios de referências aos palestinos – e suas primeiras manifestações públicas, nos anos 1980s, foram conclamações para que os árabes boicotassem produtos norte-americanos, por causa do apoio dos EUA a Israel.
A conexão entre a questão palestina e o 11/9 foi sempre diminuída e apagada à época, especialmente nos veículos e think-tanks a serviço dos neoconservadores que garantiam que os EUA poderiam ignorar a questão e manter política de agressão ao Iraque, sem que isso comprometesse a segurança do país. É verdade que o 11/9 prejudicou os palestinos, porque foram marginalizados quando EUA e aliados iniciaram uma sequência de guerras durante as quais a causa palestina praticamente sumiu da pauta 'ocidental' de notícias.
Mas com as guerras no Iraque e na Síria chegando ao fim, o foco volta a recair sobre israelenses e palestinos. O 'Estado Islâmico' (ISIS) e a al-Qaeda foram derrotados nos seus esforços para derrubar governos e 'mudar o regime' em Bagdá e Damasco. Se aqueles grupos pretendem sobreviver e angariar apoios no mundo muçulmano, terão de definir um novo inimigo. Por destroçados que talvez estejam, com certeza aqueles grupos têm hoje muito mais recursos e ativistas do que bin Laden tinha à época do 11/9. A declaração de Trump sobre Jerusalém joga uma boia salva-vidas aos movimentos tipo al-Qaeda, bem quando tentam sobreviver à mais completa derrota.
Trump herdou de Obama a guerra para eliminar o autoproclamado "Califato", e deu-lhe andamento sem qualquer mudança. Muitas decisões sobre o conflito foram tomadas, sem dúvida, pelo Pentágono, não pela Casa Branca. Até agora, a maior modificação na política dos EUA na região foi o esforço para pôr fim à détente de Obama com o Irã, substituindo-a por esforço na direção oposta, para construir uma coalizão anti-Irã. Agora, isso também se torna trabalho ainda mais difícil.
Em outubro, Trump rejeitou o acordo nuclear com o Irã, demonizando os iranianos como se fossem fonte e causa de toda a instabilidade na região. Trump e seu governo tendem a misturar iranianos e xiitas, mais ou menos como fazem a Arábia Saudita e os monarcas sunitas do Golfo. O Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, H R McMaster disse no final de outubro que "o mais importante, não só para os EUA, mas para todas as nações, é enfrentar os flagelos que são o Hezbollah, os iranianos e o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica."
Ainda não se pode ver com clareza até onde essa retórica beligerante será efetivamente convertida em ação militar. Se Trump quer confrontar o Irã e o eixo de estados e organizações paramilitares que o Irã lidera, então chegou tarde demais. O lado xiita iraniano já venceu a guerra na Síria e no Iraque contra uma resistência predominantemente sunita, que era apoiada por Arábia Saudita, Qatar e Turquia. O papel do Hezbollah e o grupo paramilitar xiita Hashd al-Shaabi será naturalmente reduzido, porque já não há guerra a combater e os governos centrais em Bagdá e Damasco vão-se tornando mais fortes.
O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel tornará ainda mais fácil para Teerã conclamar todos os muçulmanos, xiitas e sunitas, a defenderem juntos o povo palestino e os lugares santos na Palestina. E tornará ainda mais difícil, se não impossível, para a Arábia Saudita e aliados no Golfo agir ao lado dos EUA, aproximarem-se de Israel e pintarem o Irã como se fosse a principal ameaça na região.
Há uma consequência ainda mais ampla, dessa mudança na política dos EUA: há cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo que são maioria em cerca de 50 estados e constituem 22% da população do mundo. Nenhum deles aprovará o mais recente movimento de Trump. A população de muitos daqueles países, inclusive alguns dos maiores como a Turquia (80 milhões) e o Paquistão (193 milhões), já era muito fortemente anti-norte-americana, mesmo antes de Trump ser eleito. Em 2012, pesquisas mostraram que 74% dos paquistaneses consideravam os EUA como país inimigo. E esse número, já muito alto, é ainda maior na Turquia, onde 82% dos turcos disseram, nesse verão, que têm impressão desfavorável dos EUA. Divididos em praticamente todas as questões, os turcos estão unidos contra os EUA, o que tornará ainda mais difícil qualquer movimento dos EUA contra o Irã.
O presidente Putin deve visitar Istanbul na 2ª-feira, para falar com o presidente Erdogan sobre Jerusalém e Síria, sinal de que pode ser muito difícil separar a questão da capital 'reconhecida' por Trump, de Israel, e os demais conflitos.
Todos esses importantes desenvolvimentos estão em curso, mas nada mudou de fato em campo: Israel já tratava Jerusalém como sua capital, e o chamado processo de paz com os palestinos está há anos em estado de total confusão. Os EUA já não podem sequer fingir que seriam mediador equilibrado, o que, na verdade e sobretudo, jamais foram.
Ao 'reconhecer' Jerusalém como capital de Israel, Trump e Israel podem ter quebrado uma regra política que ensina que não é recomendável mexer em situações de fato que outros já tenham acabado por aceitar, mesmo que informalmente. É movimento que pode ter consequências desastrosas inesperadas. Bom exemplo disso se viu há menos de três meses, quando o presidente Masoud Barzani promoveu um referendum que declarou a independência formal do Curdistão Iraquiano, apesar de os curdos iraquianos já viverem em situação de fato bem próxima da independência desde 2003. Os governos do Iraque, da Turquia e do Irã, que durante anos aceitavam a situação anterior, reagiram furiosamente; e em três semanas os curdos perderam o controle sobre Kirkuk e grande parte de seu território. É provável que o presidente Trump e Israel logo descubram que apostaram mais alto do que recomendava a prudência e terão de pagar preço mais alto do que esperavam ao formalizar o controle israelense sobre Jerusalém.  -  (Aqui).
(Nota dos tradutores: Tradução de trabalho, para finalidades didáticas, sem valor comercial [NTs]. Epígrafe acrescentada pelos tradutores).

O FATOR TRUMP


Leo Villanova. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

CHINESE CARTOON: TIO SAM RUMA PARA JERUSALÉM

(Cartum adaptado por este blog).

Luo Jie. (China).

DE COMO PHILIP MARLOWE VOLTOU À AÇÃO (II)

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Para ler o Capítulo 1, clique AQUI.
Sebastião Nunes, autor da série, é natural de Bocaiuva, MG, escritor, editor, artista gráfico e poeta. É também titular de um blog no Portal Luis Nassif OnLine.


O país dos canalhas - Capítulo 2 - Antecedentes do grande assalto

Por Sebastião Nunes

Cheguei ao Brasil no princípio de 2017 como os pioneiros do Velho Oeste, os garimpeiros do Alaska, os desesperados de Serra Pelada, os construtores de Brasília e os políticos do PMDB: disposto a tudo para ficar rico no menor tempo possível. Autorizado por Raymond Chandler, chutei a ética para escanteio, pois os tempos eram outros e no país funcionava a lei do cada um por si, tipo urubu em carniça.
Eu sabia que havia filões inesgotáveis em todas as esferas do poder. Bastava cavucar um pouco e jorrava grana viva como petróleo em quintal da Califórnia. Instalei meu escritório em Brasília, botei na porta a plaquinha “Philip Marlowe – Detetive Particular – Investigações Sigilosas” e sentei para esperar. O quarteto que apareceu no capítulo anterior foram os primeiros clientes. E prometiam dar muito caldo.
Ah, sim. Antes de instalar o escritório passei um mês lendo, vendo e ouvindo tudo o que pude sobre quem era quem nas esferas pública e privada. Passei a pente fino políticos, magistrados e empresários. Muito produtivo. Mas foi um trabalho do cão.

VERIFICANDO OS CLIENTES
Logo que as visitas chegaram não duvidei sequer por um segundo de que eram realmente Ednardo Cunha, Sérgio Cobreiro, Joseph Serrote e Amnércio Naves. Os dois últimos transitavam o tempo todo entre São Paulo, Rio e Brasília. Os dois primeiros deveriam estar presos, mas era um problema menor: um milhão de reais bem aplicados resolvia a questão. 100 mil aqui, 200 ali, 150 acolá – e armava-se uma rede que ia desde sósias perfeitos até entradas e saídas na prisão a qualquer hora.
Resolvido o quesito da identificação, restava o da remuneração, pois eu não era louco para trabalhar de graça. Não para aquela quadrilha.

PEQUENOS DETALHES
– Tudo bem – disse eu. – Posso providenciar os álibis de que precisam. Só não entendo porque Cunha e Cobreiro precisam de álibis, se teoricamente estão presos.
– Ora, Marlowe, não seja ingênuo – disse Serrote. – Precisamos de um álibi que nos coloque, aos quatro, fora do foco da polícia federal. Um álibi que demonstre de modo inquestionável que estávamos, digamos, numa reunião em Florianópolis a portas fechadas e durante pelo menos 72 horas. Gaste o que for preciso e inclua nas despesas.
– Não seria mais fácil desligar o foco da polícia federal?
– Não, não seria – continuou Serrote. – Não queremos misturar as coisas. Nosso território vai do legislativo ao executivo e ao judiciário. Fora daí, só podemos contar, sem prejuízos medonhos, com a mídia. Mesmo na área empresarial escolhemos a dedo nossos parceiros. Você viu a confusão que tá rolando, não viu? Não queremos mais denúncia batendo em nossa porta como evangélico em casa de pobre.
– Muito bem. Vamos supor que eu consiga os quatro álibis – ponderei. – Mas quem descasca o pepino dos dois que teoricamente estão presos?
– Com habeas corpus do STF – esclareceu o sempre bem informado Joseph Serrote. – Três dias antes do assalto você providenciará os habeas corpus e poderemos nos reunir em qualquer lugar.
– Mesmo monitorados por tornozeleiras eletrônicas? – indaguei reticente.
– Que tornozeleiras que nada – respondeu Serrote. – Os habeas corpus deverão ser amplos, gerais e irrestritos. Para não dar na vista, Cunha e Cobreiro terão confiscados os passaportes, ficando proibidos de deixar o país.
– Ah, ah, ah – riu Cobreiro. – E quem deixaria o país, se nossas minas de ouro estão bem aqui, debaixo de nossos narizes compridos? Amnércio que o diga.
Ri também.
Marquei nova reunião para detalhar o pagamento dos honorários, das despesas e combinar os passos seguintes. O que eu precisava mesmo era de tempo para pensar.
Acompanhei os quatro até a saída, tranquei a porta, abri a gaveta de baixo, tirei a garrafa de scotch e me servi uma dose caprichada. Para turvar a consciência, caso fosse necessário, deixei a garrafa à mão e botei as pernas em cima da mesa. Só faltavam as esporas de xerife e o chapelão para eu me sentir personagem de faroeste.

REFLEXÕES MIÚDAS
Por que diabo o sacana do Raymond Chandler me envolvera em tal merda? Se o objetivo era me tirar de circulação, bastava escrever um conto em que um gangster de Hollywood me desencarnava – e pronto. Mas me acanalhar, envolvido em tramoias com a barra pesada de Brasília, era demais.
Foi uma reflexão que me salvou. Uma reflexão do sr. Harlan Potter, personagem de Chandler em “O longo adeus”:
“Nós vivemos no que se chama uma democracia, governada pela maioria do povo. É um ideal muito bonito, pena que não funciona. As pessoas elegem, mas é o partido que nomeia, e as máquinas partidárias, para serem eficientes, recebendo propina e corrompendo, precisam de muito dinheiro. Alguém tem que entrar com esse dinheiro e esse alguém, indivíduo ou grupo financeiro, industrial ou qualquer outra coisa espera algum tipo de benefício graúdo em troca. (...) Em grande quantidade, o dinheiro tende a ganhar uma espécie de vida própria, até mesmo uma autoconsciência, se posso dizer assim. O poder do dinheiro fica muito difícil de controlar. O homem sempre foi um animal à venda. (...) O homem comum está cansado e assustado, e um homem cansado e assustado não pode se dar ao luxo de ter ideais.”
Espero que o leitor tenha compreendido meu drama. Infelizmente nada posso fazer. O Brasil é assim e eu sou um homem comum, cansado e assustado. Parodiando um poeta brasileiro que acabei de ler, vai, Marlowe, vai ser canalha na vida!
No país dos canalhas, um a mais não fará diferença alguma, ainda que ele se chame Philip Marlowe, um cara de conduta exemplar até aqui. Mas, como dizia Sancho Pança, quem anda com porcos acaba comendo farelo.  -  (Fonte: aqui).
(Continua).