terça-feira, 27 de setembro de 2016

PARA TRISTEZA DE RADICAIS EM GERAL...PAZ NA COLÔMBIA


Arcadio Esquivel. (Costa Rica).

A CONFESSIONAL ANA RELATA ENCONTRO COM CALVIN, SNOOPY E MAFALDA


Precisamos falar sobre Calvin, Mafalda e Snoopy

Por Ana Gabriela Rebelo

Não gosto de amigo oculto. Quer dizer, não gosto daqueles amigos ocultos convencionais de presentes pré-determinados e apáticos. Principalmente quando acontecem no trabalho. Existe alguma coisa mais formalizada informal que presentes utilitários trocados com uma pessoa com a qual você nunca chegou, sequer, a trocar palavras? E, depois, ainda é de praxe aquele meio abracinho, em uma fotografia sem graça de sorrisos amarelos. Bem, o último ano que passou não foi muito bom para mim. Uma das coisas, porém, que posso listar no “lado bom da força” foi que, pela primeira vez em muito tempo, não participei de amigo oculto nenhum. Isso, com certeza, nos poupa um belo tempo gasto em trabalho não remunerado. Tem pessoas que gostam, e eu juro que, às vezes, tento entender como alguém pode gostar de atividade tão impessoal de pseudo-intimidade-alegre. Às vezes fico pensando porque não trocamos notas de dinheiro dentro de envelopes coloridos. Acho que seria mais divertido, ao menos poderíamos colorir os envelopes e, talvez, escrever neles várias sugestões de presentes os quais você acredita que, realmente, têm afinidade com aquela pessoa. Daí ela recebe aquilo, vê seu colorido, seu traço de desenho tosco... Talvez o papel venha com alguma mancha de gordura que você deixou cair enquanto desenhava e comia rabanadas na cozinha à noite. E aí você pode até se desculpar pela mancha, explicar que estava fazendo rabanadas, e talvez então surja uma boa conversa. Uma conversa que não precisa ser alegre, mas que tenha vontade de conversa. É, às vezes tento entender e penso mais ou menos por aí: o amigo oculto pode ser bom, mas precisa ter brechas para o oculto. Se isso não acontece, fica tudo comercial, e aí realmente é aquele horário político obrigatório que ninguém quer ver, mas todos fingem que se interessam pra não pegar mal.



A coisa já começa ruim, quando primeiro tem aquele momento em que você torce para tirar alguém com quem você tenha o mínimo de proximidade. Ou, ao menos, que não seja aquela pessoa nova que apareceu de paraquedas na última hora, da qual você não sabe absolutamente nada. E se você apertou os olhos e pediu com todas as forças para não ser aquela pessoa, você errou. - “Que não seja Zezinho, que não seja... é esse mesmo o nome dele?...” Pronto! É o Luizinho... Luizinho! É esse o nome... Sabia que era alguma coisa com “inho”! Bom, agora comece rapidamente a pensar o que você vai falar sobre ele. Lembra o dia que você esbarrou com ele no corredor e ele estava... Como ele estava?... De lado! Isso, ele estava meio de ladinho, passando rápido pelo corredor e aquilo te irritou muito, pois você estava de TPM naquele dia, e aquela criatura correndo rápido de ladinho te lembrou uma porra de um siri gigante que atrapalhava teu caminho! Que inferno! Esse puto de siri! Ótimo, você já tem algo a dizer. O presente. Bem, “presente” me parece uma palavra meio equivocada neste caso. Equivocada porque não me parece que tenha a ver com o ato de presentear alguém. Presentear alguém envolve uma troca íntima. Acredito com todas as forças que precisamos saber presentear sem que isso envolva um ato comercial. Presentear não deve, necessariamente, precisar de dinheiro. Presente é gostoso quando é algo pensado, algo que tenha um pouco de si e do outro. Não gosto de ter que sair, com pressa e sem vontade, no meio do horário de almoço, para comprar uma bolsa de couro de determinada marca para o Zezinho! Ou Luizinho! Whatever! Aliás, eu nem gosto do “fulanoZINHO”. E gosto menos ainda de fingir que gosto! Nós adultos somos muito ruins com isso. Fingimos tudo. Fingimos que gostamos quando não gostamos. E também fingimos que não gostamos quando gostamos. Quando crianças, sentíamos o que sentíamos e pronto. E aí vamos crescendo e sendo educados a esconder o coração, não tirar melecas e participar de coisas chatas por mera formalidade. Nos tornamos adultos carregados de melecas velhas e quinquilharias no coração. Não vou ser romântica e dizer que gosto de conversar com crianças. Não gosto de conversar com todas as crianças, tem crianças que são chatas. Tem crianças que só falam do homem aranha, e ficam gritando, e passam horas fazendo explosões com a boca. Mas isso não é um problema, elas também não conversam comigo quando me acham chata. É uma questão de afinidade e sinceridade. Por isso gosto das crianças, mesmo quando são chatas.




Trabalhei com crianças em vários momentos da vida. Meu penúltimo emprego era com crianças. Trabalhava em uma equipe de vários profissionais que faziam atendimentos de natureza psicossocial com crianças. E foi com essas pessoas que vivi minha mais recente experiência de amigo oculto. Mas ali era diferente, convivíamos com crianças, poderíamos brincar, sabíamos brincar! Fiquei animada e logo me inscrevi na ata de reunião para propor meu fabuloso plano de amigo oculto i-no-va-dor! - “Então... vamos presentear nossos amigos com brincadeiras! Cada um propõe uma brincadeira que acha que tem a ver com seu amigo. Ou também pode ser uma música, uma performance, uma esquete!” Bom... As caras não foram muito receptivas, então eu tentei outra coisa. - “Então vamos nos presentear com brinquedos. Não brinquedos caros... porque atualmente os preços de brinquedos estão absurdos... Podemos escolher besteiras, brinquedos simples, dessas lojinhas de um e noventa e nove. Que tal?” Novamente as carinhas não foram lá muito boas. Os narizes estavam torcidos e os olhos de pena para mim foram tantos, que cheguei a pensar que realmente havia algo de errado com a minha pessoa. O silêncio se demorou por alguns dez segundos, até que alguma boca salivando se rebelou: - “Eu quero um cinto bonitoooo! Não sou mais criança.” As outras boquinhas rapidamente também começaram a salivar com bolsas e cremes, maiôs, sandálias e maquiagens. Estava decidido, precisávamos de cintos bonitos para combinar com as calças.



No final dos anos setenta Mafalda pergunta a su mamá:-”...com quantos anos a gente fica velha?” Su mamá lhe responde que é tudo uma questão de manter o espírito jovem. O que leva a menina a outra pergunta:- “Tudo bem... mas e o espírito... com que idade ele começa a precisar de maquiagem?” Ai Mafalda... tantos anos trabalhamos com estas crianças e nunca, nem sequer em uma única reunião, te convidamos! Convidamos Sigmund Freud e o senhor Lacan, mas nunca a Mafalda! Gostaria de saber dos livros de cabeceira do senhor doutor que me trata. Acho que, antes de nos propormos a cuidar de alguém, deveríamos cuidar melhor da nossa lista de convidados. - “Que lista de convidados?” Pergunta o senhor Lacan. Bem, na verdade, falo de várias listas. A lista de convidados para as reuniões da ONU, lista de convidados para as conversas mentais que temos antes de dormir, listas para aniversários, casamentos, conversas em mesa de bar e camas de motel. Também falo das listas de convidados para reuniões de família e direção de trabalho. Não falo “direção” no sentido de cargos profissionais, falo sobre direcionamento de sentido do que fazemos. Também não falo do “cuidar” só no sentido de tomar conta ou conduzir um tratamento de saúde. Falo de direção e cuidado como pensamento, reflexão. Sempre que vamos pensar sobre alguém ou sobre alguma coisa, ou simplesmente pensar, devemos fazer uma boa lista de convidados que saibam brincar. Do contrário, podemos estar diante do mais extraordinário nascimento de estrelas, que não conseguiremos ver nada mais que chuviscos a perturbarem nossos olhos. Poderemos estar diante de naves extraterrestres pousando na lua, mensagens em três diferentes línguas, amores capazes de fazer cantar. Gritarão tristezas e alegrias e todos os tipos de coisas misteriosas e inexplicáveis, e tudo que teremos ainda serão belos cintos de couro para combinarem com nossas calças.


O melhor amigo do Calvin é um tigre, o Haroldo. O melhor amigo do Charlie Brown é um cachorro, o Snoopy. O Linus também é amigo do Charlie e do Snoopy. Aliás, quem não é amigo do Snoopy? Eu gosto de todos eles e tenho todos na cabeceira e na bolsa. Gosto de convidá-los para minha casa. Deixo meus convidados virem como quiserem, de calças, vestidos, descalços, pintados, com perucas... Não pré-combinamos isso, porque isso não é o principal. Exceto, é claro, quando é festa do chapéu, do pijama ou da gravata maluca. Acho mesmo que precisamos falar mais sobre Paty Pimentinha e Mafalda. Acredito (e isso apazigua meu coração) que, se elas estivessem naquela reunião de trabalho, teriam topado o tempo de brincadeira. Afinal, trabalhamos duro e... Estamos fazendo isso e... Quer dizer, pra quê mesmo isso tudo? Uma vez, o Charlie perguntou pro Linus porque eles precisavam estudar. O Linus disse que era para que tirassem boas notas. E para que boas notas? Bom, para que consigamos nos formar e conseguir um emprego que nos pague bem e assim consigamos matricular nossos filhos em boas escolas para que... Bem, para que eles tirem boas notas!
Você pode estar se perguntando se seria mesmo uma boa dar ouvidos a um menino que casualmente troca ideias com um cobertor azul. Ou talvez se pergunte, por que questionar tanto um simples amigo oculto? E o que posso lhe dizer é que não questiono o amigo oculto. O que questiono é o oculto. A falta dele quando deveria haver, e o pseudo-oculto que se desvela em um acordo coletivo onde mantemos a mediocridade esvaziada de todo dia. Esvaziada de desejo, de sentido, de autenticidade. Lembro-me de Antunes Filho e o convido também, junto a Calvin e companhia, para brincar na nossa festa. Em uma de suas declarações, Antunes diz:- “Está tudo se esfarelando. A fé no outro se esfarela. Você não pode contar com ninguém, você fica cada vez mais solitário e contando com os eletrodomésticos.” Pois é disso que se trata esse “amigo oculto da depressão”: a dureza com que levamos tudo só nos permite brincar brincadeiras didáticas que corroboram com nossas vidas de realidades vazias de sentido, que precisam a cada fim de ano serem apertadas com belos cintos. Brincadeiras didáticas são chatas. É quase como o que acontecia nas antigas aulas de informática das escolas nos anos 90. Você ia para a aula todo animado, porque sempre no final a professora dava 30 minutos de tempo livre no pc! Tempo livre no pc, que demais! Vamos jogar! Então, você e sua dupla abriam os jogos que tinham instalados e... eram to-dos didáticos. Dinossauros são legais quando são dinossauros e não quando ensinam a gente a resolver funções matemáticas. O último ano que passou não foi bom para mim. E isso é algo que eu espero compartilhar com um amigo. E mesmo que ele não me entenda ou fale merdas e me dê conselhos estúpidos, ou simplesmente não faça nada além de ser meu amigo, ok. Passaremos madrugadas sozinhos na cozinha comendo rabanadas. Também encheremos nossas caras quando der na telha, teremos dores de cabeça, sentiremos raiva e medo e também acharemos estranhas e desconfortáveis mais da metade das coisas que acontecem no mundo. Os sorridentes entusiastas de Recursos Humanos que me desculpem, mas é muito solitária essa vida de polir cintos e dentes. Cansei de falar sobre produção, precisamos falar sobre Calvin, Mafalda e Snoopy também.
(Fonte: Obvious - AQUI).

DA SÉRIE ESSAS VAIDOSAS SUMIDADES E SUAS MIOPIAS PROFESSORAIS


Dallagnol culpa portugueses por corrupção no Brasil. É que ele não conhece a Austrália, coitado

Por Fernando Brito

O promotor Deltan Dallagnol, narra a jornalista Maria Cristina Fernandes, no Valor, diz que a origem da corrupção no Brasil está nos primeiros colonos portugueses que, segundo ele, eram a escória:
 “Quem veio de Portugal para o Brasil foram degredados, criminosos. Quem foi para os Estados Unidos foram pessoas religiosas, cristãs, que buscavam realizar seus sonhos, era um outro perfil de colono”.
Paulo Henrique Amorim, em vídeo publicado no Conversa Afiada, diz que o chefe da Lava Jato é um idiota.
O Dr. Dallagnol é pior, é um ignorante.
Talvez não tenha, como a maioria dos brasileiros, ancestrais portugueses, não sabe coisa alguma de nossa história.
Não sabe, por exemplo, que foi um possível degredado, João Ramalho, que se casou com a índia Bartira, depois Isabel Dias, pelas mãos do jesuíta Manoel da Nóbrega, a quem ajudou a fundar o colégio e a vila que se tornariam a cidade de São Paulo.
Mas os degredados no Brasil foram bem poucos, doutor.
Muitos, eles foram sabe onde? Na Austrália, que o senhor deve achar um país civilizadíssimo.
Para lá foram mandados, doutor, “só” 168 mil prisioneiros das cadeias da Inglaterra.
É, é isso mesmo, 168 MIL!
Se o senhor precisar para entender, a gente pode fazer um powerpoint contando a história da “First Fleet” (Primeira Frota). Tem até uns selos comemorativos que vão ficar lindos na apresentação, pode crer. Mostram os 11 navios que levavam nos porões, acorrentados, setecentos e trinta e seis degredados e cento e oitenta e oito mulheres de “reputação duvidosa” da Inglaterra para a Austrália.
Aliás, a First Fleet passou aqui pelo Rio de Janeiro, mas não deixou ninguém, levou todo mundo lá para a terra dos cangurus.
Portanto, doutor, neste assunto de História não funciona este seu esquema de “não tenho provas, mas tenho convicção”.
Se o seu Direito for igual à sua História e Sociologia, Deus nos livre, o sujeito é ladrão porque o tatatatatatatatatataravô era um degredado.
Porque os degredados que não foram o ponto de partida da colonização do Brasil o foram na Austrália, e quase três séculos depois dos nossos poucos “ancestrais criminosos”. Está até “mais fresquinho” este passado.
Mas a Austrália é um país que todos, inclusive o senhor, apontam como “sério”.
Ou será que é porque falam inglês? - (Fonte: AQUI).
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Entreouvido nos bastidores
"Como diria Fernando Sabino, deixa o Dallagnol falar."
"Como assim?"
"Ao que consta, ele fez mestrado em Harvard. Certamente, como tantos, foi fisgado pelo 'fascínio' exercido pela pátria dos WASP, white, anglo-saxon and protestant. Mas, só eles, os WASP, evidentemente. Portanto, deixemos o jovem falar, exibir sua miopia professoral." 

ECOS DA ÚLTIMA DE ALEXANDRE, O GRANDE

Samuca.

Frank.

O EFEITO AQUARIUS (OU: POR QUE VOLTAR A FALAR EM AQUARIUS)


Aquarius, a energia para continuar a lutar

Por Léa Maria Aarão Reis

Quando um evento gera imensa expectativa antes de se concretizar, é frequente a decepção quando ele acontece. O objeto da espera invade a imaginação dos que aguardam  e inflaciona, na fantasia, a versão do acontecimento. Perde-se a dimensão do real. A data da partida, o dia da chegada, a noite da grande festa, do encontro decisivo. Da estreia de um filme muito badalado.

Não é o caso de Aquarius, cujo autor, de 48 anos, é um dos mais competentes cineastas brasileiros da sua geração, o pernambucano Kléber Mendonça Filho, de Recife, de formação jornalística. Aquarius não desaponta. Pelo contrário. Eletriza milhares de espectadores e é consagrado, durante e no final das sessões dos cinemas onde é exibido, como ocorreu no último fim de semana.

Depois de quatro meses aguardando para estrear no Brasil, desde o histórico fora-temer da sua equipe, nas escadarias do Festival de Cinema de Cannes, em maio passado, o filme protagonizado por Sonia Braga atinge uma marca rara de bilheteria - duzentos mil espectadores nos seus dez primeiros dias; sessões lotadas, calorosos aplausos e gritos de protesto das plateias contra o mordomo e o golpe de estado.

Aquarius se firma além da sua dimensão estritamente cinematográfica, que é admirável, e se torna um filme/ícone. É o totem da resistência permanente dos brasileiros contra o esbulho dos meliantes usurpadores do governo e da energia da qual precisamos para botá-los para fora.

Neste começo de carreira a sua trajetória é notável embora acabe de ter sido golpeado pelo governo através de uma comissão, sem representatividade e sem ética (um dos membros é daquela crítica mal cheirosa do não-vi-e-não-gostei de certos filmes), que tradicionalmente aponta as produções brasileiras a serem escolhidos por Hollywood como candidatas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Apesar do revanchismo político com gosto de vingança infantil, Aquarius já pode prescindir da benção de um Oscar. Ganhou prêmios nos festivais de Amsterdã, no Transatlantyk, da Polônia, em Lima, no Peru e em Sidney, na Austrália. Fez furor na Europa e esta semana está sendo mostrado no Festival de Cinema de Toronto – isto, por enquanto.

Já está vendido para o Netflix internacional, comprado para exibição em cinemas de 60 países e é praticamente unânime a crítica que recebe dos mais influentes jornais ocidentais. Um grande filme.

Portanto, não conceder ao Brasil a honra de apresentar Aquarius como candidato ao Oscar, é como não convocar Neymar para a seleção de futebol porque ele seria contra o golpe, diz-se nas redes sociais. Mais um escândalo internacional do governo temer. Mais um tiro no pé.

Os produtores do filme formam um time da pesada. Além dos  franceses Michel Merkt e Emilie Lascaux, Saïd ben Saïd está no grupo. É o respeitado produtor franco-tunisiano que costuma captar recursos para filmes de Polansky, Brian de Palma e Barber Schroeder. Os brasileiros Walter Salles e Carlos Diegues são co-produtores.

A espinha dorsal do roteiro de autoria de Mendonça traz um admirável e fascinante retrato de mulher forte e potente - idosa? madura? velha? meia-idade? -, a Clarade Sonia Braga, de 66 anos. Clara é o símbolo da mulher da geração libertária dos meados dos anos 60, corajosas mulheres da contracultura que romperam os padrões patriarcais vigentes até então. Clara é da leva de geração que se seguiu, nos anos 70/80.

Viúva, mãe de três jovens adultos, tem netos e é jornalista aposentada. Desde a juventude vive no apartamento do primeiro andar do Aquarius (na realidade, o edifício Oceania) defronte do mar, na praia da Boa Viagem, no Recife, onde criou os filhos e viveu boa parte de sua vida.

Interessados em construir uma torre, um prédio/pombal moderno, naquele espaço, os responsáveis pela empresa Bonfim já adquiriram todos os apartamentos do prédio, menos o de Clara. Por mais que tenha deixado claro que não pretende vendê-lo – o seu ninho afetivo -, ela sofre um assédio cada vez mais agressivo para mudar, por parte de um coronel transmutado (hoje) em empresário, e seus filho coxa que estudou nos Estados Unidos (netos dos entulhos da ditadura civil-militar de 64) e voltam “com os olhos cheios de sangue” (como diz o personagem) para começar a trabalhar aqui.

Com habilidade, o tom da narrativa pouco a pouco vai  transformando o universo plácido da protagonista numa história de quase-suspense onde o pano de fundo permanece a questão urbana e social desumana: a  gentrificação de bairros e quarteirões das grandes cidades brasileiras entregues à sanha de grupos da indústria imobiliária e da construção civil.

Em Boa Viagem, por exemplo, em determinado momento, Clara mostra ao filho e à jovem nora a língua negra de esgoto, na areia, que divide a avenida da praia das edificações onde mora a classe média e alta separada dos casebres da favela. Insinua-se que a favela, é óbvio, com o tempo será engolida. “Num país em que para tudo há um jeitinho, as cidades acabam sendo uma grande confusão,” diz o diretor.

Para ele “o filme é de resistência e é um pouco um filme de sobrevivência.” Mas “trata-se de um filme sobre a energia necessária para existir. Às vezes cansa, mas há que encontrar mais energia para continuar a lutar.“

Na perspectiva cinematográfica, Aquarius me empolga por três principais razões: é cinema de substantivos fortes com pouca adjetivação. Como nos filmes de mestres, uma imagem nele vale por toda uma sequência, o que dá vontade de assisti-lo novamente. Por isto, Mendonça é saudado, com razão, como um diretor com domínio absoluto do cinema.

O trabalho poderoso de Sonia Braga é um capítulo á parte ao qual se deve voltar. E me fascina porque é impregnado da sensualidade de Recife e do Nordeste, no sentido mais largo, como é O Som ao redor (2013) outro belo filme do cineasta. A sensualidade trazida pela própria sedução e pela sexualidade intacta, apesar do câncer de mama e da idade, da vigorosa Clara cujo nome é um dos inúmeros símbolos, signos e chaves que permeiam a narrativa clara e serena tocada com a trilha musical deliciosa.

Na sua sensualidade Aquarius tem o doce perfume dos cajus que o lendário escritor  Rubem Braga sempre pedia aos amigos - “uma caixinha” - para trazerem para ele, na sua cobertura em Ipanema.

Discriminar Aquarius é passar mais um recibo da grossura e da burrice do governo golpista. É reforçar o que escreveu o crítico do jornal The Guardian Peter Bradshaw – será ele um petralha?:

"Essa rica e misteriosa história brasileira é sobre desintegração social. Metáfora do Brasil com temas sobre nepotismo, corrupção e cinismo.” Vamos mudar esta imagem. Fora, temer.  (Fonte: site Carta Maioraqui).

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'Aquarius' já foi algumas vezes abordado neste blog, sendo a mais recente "Aquarius, um filme na mira do poder" - aqui. Por que motivo, afinal, vale a pena voltar a falar em Aquarius? Simples: trata-se de um filme qualificado, marcante, incômodo. 

Vejamos a seguir:

I) "Esnobado pela comissão do Ministério da Cultura que escolheu o candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, vai fazer campanha para concorrer em outras categorias do prêmio da Academia. Quem está por trás da estratégia, que terá a atriz Sonia Braga como principal trunfo, é o americano David Shultz, diretor da Vitagraph Films, a companhia encarregada de distribuir o longa-metragem nos Estados Unidos, onde ele estreia no dia 14 de outubro, depois de ser exibido no Festival de Nova York..."  - "Distribuidora americana fará campanha por Sonia Braga e 'Aquarius' no Oscar" - AQUI.

II) POR QUE AQUARIUS INCOMODA A FOLHA


Revelador: jornal mobiliza colunista para sugerir, com base no filme, que Previdência Social é injusta. Ela sabota o “progresso” oferecido pela especulação imobiliária…
Por Glauco Faria, no site Outras Palavras
Neste domingo (25), a Folha de S. Paulo brindou seu leitor com um artigo intitulado “Aquarius”, de seu colunista Samuel Pessoa. Para quem não conhece, trata-se de um economista ligado ao Instituto Millenium e um dos principais assessores da área na campanha do presidenciável Aécio Neves (PSDB) em 2014.
texto escolhe o filme de Kléber Mendonça Filho, que se tornou símbolo de resistência ao processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, para defender a reforma da previdência. A história em si é centrada em Clara, personagem vivida por Sônia Braga, que luta para permanecer em seu apartamento no Aquarius, um edifício antigo de poucos andares na Praia de Boa Viagem, no Recife, alvo de uma construtora que pretende destruí-lo para fazer ali um novo e suntuoso empreendimento imobiliário.
Pessoa diz em seu texto, em síntese, que “um conjunto imenso de distorções explica o poder de barganha de Clara”, entre elas o fato de ela receber aposentadoria integral (uma suposição sua, porque isso não é dito no filme em momento algum). Diz o autor:
“Na maioria dos países, a aposentadoria é um período de ajustes e contenção, sobretudo para quem teve vida profissional mediana, afinal, não é comum aposentadoria com salário integral.”
E complementa, adiante:
“Clara é aposentada, provavelmente no teto do INSS, e recebe a pensão do marido, que, imagino eu, é de professor titular da UFPE, ou algo equivalente. Nas regras brasileiras, exclusividade nossa, Clara pode acumular seu próprio benefício com o do marido.”
Após (com mais uma suposição) criticar o fato de o apartamento ter provavelmente sido comprado por meio de financiamento obtido junto ao antigo BNH, ele volta a mirar a Previdência. “Claro que a soma de nossas distorções –que resultam, entre outras, no gasto de 13% do PIB com aposentadoria e pensões, quando pela nossa estrutura demográfica deveríamos gastar 5%– é importante causa do baixo crescimento econômico. 
- Clique AQUI para continuar -.
'Aquarius': enfim, um grande filme brasileiro).

A VINGANÇA DO VOTO MAL PENSADO


Pavel Constantin. (Romênia).

UMA LEITURA DA REFORMA DO ENSINO


A agenda secreta da reforma do ensino: o analfabetismo visual

Por Wilson Ferreira

Depois da divulgação da Medida Provisória que “flexibiliza” disciplinas do Ensino Médio como Artes e Educação Física o Ministério da Educação voltou atrás dizendo que não era bem assim. Isso depois de forte reação de educadores e pedagogos. Mas está claro: não basta apenas o golpe político. É necessária uma operação psicológica para anestesiar as outras amargas “flexibilizações” que serão proximamente enfiadas goela abaixo da sociedade. Uma operação para manter um sistema de comunicação projetado pela ditadura militar e mantido até hoje – a concentração das informações para a opinião pública exclusivamente nas mídias audiovisuais, especialmente a TV. Para isso é necessária a manutenção do analfabetismo visual: a crença ingênua de que ver é um ato natural e fisiológico, impossibilitando a educação do olhar e a percepção das intencionalidades por trás das mensagens visuais. “Flexibilizar” Arte e Educação Física mostra  o “núcleo duro” de Poder, persistente há décadas, não brinca em serviço. Sabe o que faz: o olhar e a autoconsciência corporal estão conectados através da “propriocepção”, a base da alfabetização visual.
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Um grupo de alunos estava fazendo apresentação oral de um trabalho de pesquisa para a disciplina Estudos da Semiótica que ministrava na Universidade Anhembi Morumbi. O tema era a influência dos líderes de opinião na opinião pública a partir da referência teórica das pesquisas da Mass Communication Research de Paul Lazarsfeld.

A certa altura, foi mostrado um vídeo, desses inúmeros com a presidenta Dilma Rousseff que circulavam nas redes sociais que pretendiam comprovar que ela não passava de uma indigente mental: um pout pourri de frases desconexas, repetições, falas que não diziam coisa com coisa, gaguejos etc. Era nítido nesses vídeos que eram montagens, muitas delas criando um verdadeiro “efeito kuleshov” -experiência feita pelo teórico e cineasta russo Lev Kuleshov mostrando que a interpretação que o espectador faz de uma cena pode ser alterada através da montagem e justaposição arbitrária dos planos.

Intervi na apresentação, demonstrando como o vídeo era o resultado de um nítido trabalho de montagem. O vídeo em questão tinha passagens de emendas toscas, pinçadas de trechos de vídeos originais. Foi espantoso perceber a ingenuidade de alunos de segundo semestre de um curso de comunicação que, supostamente, deveriam ser os mais atentos a esses detalhes.

Essa foi uma pequeno amostra daquilo que podemos chamar de “analfabetismo visual” – a crença ingênua de que a visão é natural e que a compreensão das mensagens visuais é vinculada exclusivamente ao alfabetismo verbal. O analfabeto visual acredita estar “olhando”, quando apenas está vendo. Limita a sua leitura ao nível representativo e literal das imagens (a habilidade fisiológica da visão), sem compreender o nível abstrato (sintaxe, edição, montagem) da linguagem visual – o “olhar”, a habilidade sensitiva e afetiva construída socialmente.

Equivale ao analfabeto funcional: lê as palavras isoladamente, sem conseguir interpretar o que está lendo.


O projeto audiovisual da Ditadura Militar


Em um país no qual a ditadura militar implementou um projeto político de concentrar na televisão (especificamente no monopólio da Rede Globo) a exclusiva fonte de informações para os brasileiros, os doze anos de governos supostamente progressistas perderam a oportunidade histórica de alterar esse quadro.

A oportunidade de inserir no conteúdo de disciplinas como Artes ou especificamente dedicadas à Linguagem Audiovisual, desde o ensino fundamental, as noções de sintaxe, gramática e morfologia audiovisual. A partir da educação artística e fundamental do olhar, avançar para  sintaxe das histórias em quadrinhos, para a linguagem do story board até chegar ao roteiro e toda morfologia audiovisual de cinema e TV.

Somente em maio desse ano, no governo já agonizante de Dilma Rousseff, as artes visuais foram incorporadas ao currículo do ensino básico brasileiro. Para depois, o já empossado presidente desinterino Michel Temer ameaçar com uma Medida Provisória (MP) “flexibilizar” as disciplinas de  Artes e Educação Física no Ensino Médio – outro eufemismo é “opcionais”, o que na prática é o convite à erradicação.

Depois da divulgação da MP e da forte reação de professores e pedagogos, o Ministério da Educação emitiu nota dizendo que não é bem assim e que nenhuma disciplina seria eliminada.

Para bom entendedor, meias palavras bastam: esse verdadeiro núcleo duro do Poder, na política brasileira desde as últimas décadas (a recorrente eminência parda do PDS-PFL-PMDB desde a ditadura militar, representada pelos seus vices – Sarney, Itamar Franco, Marco Maciel e Michel Temer) sabe muito bem o que pretende. O núcleo é composto por profissionais que não brincam em serviço.


Operação Psicológica


Enfiar goela abaixo da opinião pública um programa como o “Ponte Para o Futuro”, com as medidas neoliberais que estalarão como chicote no lombo daqueles que vivem da força de trabalho, implica numa delicada “psy-op” (“Operação Psicológica” no jargão da Inteligência e Espionagem) que envolve principalmente a grande mídia – especificamente, a grande mídia televisual.

Essa operação psicológica é nada mais do que a manutenção do analfabetismo visual. Situação que apenas confirma a sombria conclusão do célebre documentário Muito Além do Cidadão Kane: o Brasil mudou, o País se democratizou, mas os meios de comunicação não – mantêm não só a mesma configuração do período ditatorial como dão continuidade ao projeto de concentrar nas mídias audiovisuais a única fonte de informação para os brasileiros – sobre o documentário clique aqui.

 Em tal concentração, monopólio e exclusivismo da linguagem visual na opinião pública, o analfabetismo visual é a pré-condição necessária para que esse sistema de comunicação mantenha-se intacto – assim como um “núcleo duro” de poder que seja capaz de convencer os brasileiros sobre qualquer coisa: “golpes constitucionais”, “flexibilização” de direitos adquiridos, “teto de gastos” etc.

Analfabetismo visual e verbal


O analfabetismo visual é ainda mais insidioso do que o verbal, porque é silencioso: enquanto o analfabetismo verbal imediatamente prejudica a socialização, o visual é imperceptível. O analfabeto acha que está olhando (por considerar tudo natural e representativo), porém apenas vê. Acredita que a imagem é um decalque do real e é incapaz de perceber que suas impressões e juízos são decorrentes dos efeitos psicológicos (comportamentais, Gestalt, cognitivos) da sintaxe da linguagem visual.

Ana Mae Barbosa: a importância da leitura das imagens na educação

Para Ana Mae Barbosa, especialista em arte-educação, a presença das Artes desde o ensino básico beneficiaria tanto professores como alunos: Primeiro, a leitura da imagem. Preparar o indivíduo para decodificar imagens, encontrar o sentido escondido por trás delas. Além de acostumar o indivíduo a contextualizar as imagens, onde estão inseridas. Para ela, seria a porta aberta para a interdisciplinaridade, o diálogo com outras disciplinas. A História, por exemplo – sobre isso clique aqui.

Esse “núcleo duro” do Poder, perpetuador do projeto político da ditadura militar, sabe muito bem que a sua continuidade depende da hegemonia de um sistema de informação exclusivamente audiovisual. Por isso, o golpe não pode ser apenas político. Tem que continuar na esfera educacional para garantir a perpetuação do analfabetismo visual.

Analfabetismo visual e o ovo da serpente


O analfabetismo visual sempre foi o combustível que potencializou manipulações históricas em momentos políticos decisivos:

(a) A mundialmente famosa edição tendenciosa do último debate entre Collor e Lula em 1989 no Jornal Nacional, perdida de vista por leigos incapazes de perceber a edição e seleção de planos;

(b) A flagrante montagem das imagens da pilha de dinheiro (tomadas de baixo para cima pelas câmeras) apreendida pela Polícia Federal para uma suposta compra de um dossiê pelo PT, cujo impacto levou a eleição para o segundo turno em 2006;

(c) E agora, na reta final das eleições municipais, a edição do vídeo de 27 minutos com o depoimento de Eike Batista à Operação Lava Jato – foi selecionada apenas a sequência que envolve o nome do ex-ministro Guido Mantega, ignorando sequências decisivas nas quais Eike Batista entrega uma lista com beneficiados de todos os partidos, para depois ser devolvida pelos procuradores. Repercutido e martelado à exaustão, o analfabeto visual ignora a intencionalidade e contextualização do vídeo. (Nota deste blog: o juiz Moro mandou soltar, ontem, 26, os sete presos da 'operação Arquivo X', detidos na última quinta, 22 - aqui).


E como grand finale, provando que essa psy-op é séria e profissional, ameaçam “flexibilizar” também a disciplina Educação Física.  Isto é, intervir na autoconsciência corporal e cinestésica – a chamada “propriocepção”, decisiva também na inteligência visual.

Sem falar que há uma agenda ainda mais sinistra, porque internacional e imposta pelos bancos mundiais de financiamento: a agenda do controle populacional. Banir a Educação Física em um momento no qual a obesidade entre jovens de classes sociais inferiores cresce (o analfabetismo visual ainda se soma ao analfabetismo alimentar) é uma evidente política deliberada para estimular doenças e mortes decorrentes da má alimentação.

  Mais uma vez, comprova-se que os doze anos de governos supostamente progressistas nada mais fizeram do que chocar o ovo da própria serpente que iria devorá-los: enquanto estimulavam a inserção da classe C na sociedade de consumo como símbolo da conquista da cidadania, TVs e mais TVs de plasma e LED com grandes telas de 32 ou 42 polegadas entravam nos lares de novos consumidores extasiados.

Através delas, analfabetos visuais acompanharam a grande novela da caça aos corruptos, bem editada e montada para olhos ingênuos. 

O que lembra o sombrio aforismo de Walter Benjamin no momento da ascensão do nazismo: “As massas assistem ao espetáculo da sua própria destruição”. (Fonte: aqui).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

OLD PHOTO


Clarissa, Luis Fernando e seu pai, o escritor gaúcho Érico Veríssimo. Foto acervo IMS. Sem data.
Luis Fernando, cartunista, tradutor, cronista, músico e humorista consagrado, completa hoje 80 anos.
“A gente se distrai e, quando vê, está com 80 anos. Deveria haver um curso preparatório para a velhice”.

(Vi no imagensvisions - aqui).

DIÁLOGO TRANSCENDENTAL


- Está AQUI. Vou ler pra você a parte mais grave, ok?

- Manda ver. Quanto mais eles estiverem encalacrados, melhor!

- Lá vai: "A PF diz que está provada por documentos a autorização de Marcelo Odebrecht para o pagamento de propinas nas seguintes obras:

.Linha 2 do metrô de São Paulo

.Contratos com a EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos), em São Paulo

(...)

.Contrato de processamento e tratamento de lixo em São Paulo...

- Para! Para! Que esculhambação é essa?! Quem essa força tarefa pensa que é, para extrapolar as coisas dessa maneira?!

- O que fica claro é que o país esteve por anos ocupado por empreiteiras corruptas, em todos os quadrantes, realidade que vem desde os tempos mais remotos. Uma roubalheira generalizada que não poupa ninguém.

- Dane-se!

................
NOTA

Enquanto isso, José Dirceu está preso há tempos em face de acusações diversas, uma das quais consistente em que a Odebrecht teria repassado, para sua JD Consultoria, em 2009/10, propina no valor de R$ 48 milhões, à vista de anotações apreendidas pela PF onde figurava a sigla "JD" como beneficiária. À época, o então advogado de José Dirceu, Roberto Podval, argumentou: 

"Não tem nenhum cabimento. Tudo o que foi recebido pela JD Consultoria foi escriturado. Como alguém vai receber essa quantia sem que isso apareça na contabilidade?"

Eis que hoje, 26, informa-se - AQUI - que a sigla "JD" não diria respeito a José Dirceu, mas a Jucelino Dourado, ex-chefe de gabinete de Antonio Palocci.

E ficamos assim. 

No mais, como diria o mestre João Saldanha, vida que segue.

FLAGRANTE EDIFICANTE DA VIDA REAL


Mariano.

A CORRIDA DA LAVA JATO


"Teve (Operação Lava Jato) a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim", disse ontem, 25, o ministro da justiça, Alexandre de Moraes, em encontro no interior paulista com Duarte Nogueira, candidato do PSDB à prefeitura de Ribeirão Preto, terra de Antonio Palocci, seu adversário político. Veja-se AQUI.

A curiosa declaração do ministro levanta dúvidas a respeito da real independência das instituições envolvidas na operação e um questionamento: a Lava Jato poderia estar sofrendo influência da Esplanada para interferir no resultado das eleições municipais?

Posteriormente, talvez se dando conta do vacilo em que incorrera, o senhor Alexandre, por sua assessoria, disse serem naturais as suas palavras, visto que "toda semana praticamente está acontecendo alguma coisa". O 'vão lembrar de mim', alega, é porque o governo está apoiando a operação.

Hoje, 26, menos de 24 horas depois da revelação, é lançada a etapa 35 da Lava Jato, com providências diversas e três prisões preventivas, entre as quais a do ex-ministro Palocci, por sinal demitido do governo Dilma em face de enriquecimento ilícito, inexplicado e suspeitíssimo, para dizer o mínimo. 

Mas persiste no ar a, digamos, dúvida: a Lava Jato estaria sendo direcionada para o favorecimento de terceiros na corrida eleitoral municipal em curso, ou seria mero delírio de alguns a insistência em classificar as peripécias dos últimos dias como "operações boca de urna"?

De fato, ou 'algo muito estranho' está a ocorrer, ou o ministro da justiça é afortunadamente dotado de um singularíssimo poder premonitório.