domingo, 30 de abril de 2017

A PRIMEIRA PALAVRA


Gatis Sluka. (Latvia).

METAMORFOSE


Simanca.

MÍDIA CORPORATIVA: ECOS DA GREVE GERAL


Globo tenta abafar o barulho de seu silêncio na greve geral

Por Wilson Ferreira

A Globo, acompanhada do restante da mídia corporativa, ressente-se de um cada vez mais grave processo de negação da realidade. Os sintomas são cada vez mais agudos, como demonstrou o silêncio dos últimos dias sobre a articulação da greve geral pelas centrais sindicais e movimentos sociais. Um silêncio bem barulhento, pois revelou a sua autoconsciência do poder de duas armas semióticas que sempre dispara em contextos de desestabilização política: a “profecia autorrealizável” e o “efeito copycat”. O constrangimento e “saia justa” dos apresentadores nas primeiras horas da manhã de sexta-feira também revelou uma aposta: "as nossas armas semióticas são tão poderosas que, se ficarmos em silêncio, nada vai acontecer!" - Mas a negação tautista da mídia corporativa descobriu da pior forma possível que existe vida lá fora, no deserto do real.

Como de hábito esse humilde blogueiro enfrenta a perigosa missão de entrar em contato com o material altamente tóxico e volátil emitido diariamente pela mídia corporativa, em particular com as bombas semióticas disparadas pela vetusta TV Globo.

Como acompanhamos nos últimos tempos, uma emissora cada vez mais fechada em si mesma e alheia a transformações ao redor, inebriada com o seu poder de impor agendas, transformar interinos em presidentes e turbinar o narcisismo de policiais federais, juízes do STF e forças tarefas de moralização: chamamos isso de “tautismo” (tautologia + autismo), a doença dos sistemas que se fecharam em si mesmos; sobre esse conceito clique aqui.

Mas (ante)ontem, dia 28, foi no mínimo divertido acompanhar a verdadeira saia justa a que se submeteram os apresentadores de telejornais da grande mídia nas primeiras horas da manhã. Todos pareciam ser pegos de surpresa: terminais de ônibus vazios? Pneus queimando nas estradas? Trens e metrôs parados? O que está acontecendo?

Enquanto a Band mantinha o tom monocórdico que sustenta até agora (o “desafio” dos trabalhadores em chegar ao trabalho numa greve que só atrapalha), na Globo os momentos mais impagáveis ficaram com a dupla Rodrigo Bocardi e Gloria Vanique. Enquanto a apresentadora se agarrava na pièce de résistance do aeroporto de Congonhas, que mantinha a normalidade dos pousos e decolagens, Bocardi tentava minimizar as imagens de incêndios e barricadas em ruas e estradas: “Não é uma greve geral! São apenas ALGUNS sindicatos... quer dizer, muitos...”, titubeava.

Bocardi: "sexta-feira amanheceu um dia diferente"

O termo “greve geral” era evitado. Falava-se em “manifestações”, “sindicatos” e “greve nos transportes”. A Globo ainda apostava no esvaziamento da greve geral. Só mais tarde, quando perceberam a intensidade das mobilizações e o alcance nacional, não teve jeito e começaram a anunciar a temida expressão “greve geral”.

O fato é que durante toda a semana simplesmente ignoraram o tema. Nenhuma notícia sobre a convocação da greve pelas centrais sindicais em protesto contra as reformas trabalhistas e previdenciárias impostas pelo governo do desinterino Temer.

Apesar do movimento ter alcance nacional, nem sob o ângulo da prestação de serviços para os telespectadores a grande mídia tratou o tema: haverá transportes na sexta-feira? Como ficarão os serviços públicos? Como sairei de casa?

Profecia Autorrealizável e a linguagem performática


Um silêncio “barulhento” porque repleto de significados: em primeiro lugar revela a parcialidade e partidarismo da mídia corporativa que insiste em fingir ser a vestal da ética e da imparcialidade jornalística.

E segundo, porque revela a autoconsciência do poder de duas armas semióticas que a própria Globo utilizou nos últimos anos para a desestabilização política e econômica que culminou no golpe: a profecia autorrealizável e o efeito copycat.  


A mídia corporativa (e principalmente a TV Globo pelo monopólio da audiência) sabe que numa sociedade midiatizada a informação é muito mais do que um simples meio de transmissão de conteúdos - . A linguagem não apenas representa, mas também transforma-se em ação, performatiza, faz coisas serem realizadas.

Por exemplo, o leitor deve lembrar da famosa sequência do filme Matrix quando Neo (Keanu Reeves) vai visitar o Oráculo e recebe uma advertência: “cuidado com o vaso”. “Que vaso?”, pergunta surpreso Neo, virando-se e esbarrando no vaso que cai para se quebrar no chão. O Oráculo não sabia que Neo quebraria o vaso. Mas foi sua advertência que fez a queda do vaso acontecer. Em outras palavras, o Oráculo não representou o futuro – fez o futuro acontecer através da função performativa da linguagem.

Como autores como Wittgenstein e Austin apontavam, a pragmática antecede a semântica. Antes do signo representar ele pede uma ação – leia WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas, Vozes e AUSTIN, J. Quando Dizer é Fazer, Artes Médicas, 1990.

A grande mídia nos últimos quatro anos bateu diariamente, manhã tarde e noite, o bumbo de uma suposta crise econômica descontrolada: desemprego, inflação, dívida pública, apagões etc. Se até 2012 o País tinha um “crescimento econômico invejável” e “decolava” com a entrada nos BRICS, como observava a revista The Economist, repentinamente tudo mudou como se tivesse virado um disco de vinil para o lado B. Da euforia para a catástrofe de uma hora para outra.

De tanto repercutir essa agenda, um dos quesitos essenciais para a consumação do golpe político, os agentes econômicos parece que acreditaram e a crise autorrealizou-se – contando ainda com o auxílio luxuoso da Lava Jato, que destruiu a cadeia produtiva do óleo, gás, setor naval e construções, gerando de uma hora para outra 600 mil desempregados.

Portanto, a grande mídia sabe que noticiar a articulação da greve geral pelos sindicatos e movimentos sociais poderia criar o efeito recursivo ou autorrealizável. Foi nesse silêncio que a TV Globo apostou. De forma alucinadamente tautista, as salas de guerra dos aquários de redação da Globo imaginaram: se ficarmos em silêncio, nada vai acontecer!

Mas a negação tautista da mídia corporativa descobriu da pior forma possível que existe vida lá fora, no deserto do real.


O efeito de imitação


Também Globo e a grande mídia que a acompanha sabem que, além do efeito autorrealizável das notícias, há também o chamado “efeito copycat”. Um efeito residual de imitação que acompanha a personificação das notícias - ou um tipo de jornalismo que procura “personagens” ao invés dos fatos.

Na ânsia em criar uma atmosfera de desestabilização política, o noticiário global deu espaço para manifestações de intolerância, ódio e preconceitos. Mesmo muitas vezes condenando, os telejornais abriram uma verdadeira Caixa de Pandora – o efeito copycat fez a psicologia do fascismo sair das sombras da vergonha para a claridade das telas de TV com bolsonaros e felicianos.

Seguido pelo efeito de imitação de protofascistas em redes sociais, espaços públicos das ruas, estações de metrô e manifestações políticas.

É visível o esforço da emissora em não personificar a greve geral – não há líderes ou pessoas, apenas “centrais sindicais”, “vândalos”, “grupos” ou “manifestantes”. A mídia corporativa sabe muito bem o alcance semiótico das armas que tem nas mãos e que sempre utiliza nos momentos-chave de ação política: a profecia autorrealizável e o efeito copycat.

Metalinguagem e “mea culpa”


A Globo não foi pega de surpresa pela greve geral em si. Mas ficou surpresa em descobrir que existem movimentos autônomos lá no deserto do real, para além do sistema que criou fechando-se em si mesma.

Para reverter essa ironia patética, a Globo se viu obrigada a fazer uma caprichada cobertura ao vivo da greve geral ao longo de todo o dia – com direito a acompanharmos repórteres tossindo e sufocando pelo efeito dos gases das bombas lançadas pelos pelotões de choque da polícia.


Mais além, o Jornal Nacional tentou fazer uma espécie de metalinguagem da cobertura da greve geral como uma espécie de mea culpa do porquê manteve-se em silêncio todo esse tempo. “Todos os programas da manhã abriram espaço para flashs com informações...”, relatou a apresentadora Renata Vasconcellos como se, repentinamente por encanto, a Globo acordasse e desse um “show” de cobertura jornalística.

É o mesmo “sentimento de culpa” que parece dominar a emissora todas as vezes em que o tiro sai pela culatra, sempre produzindo minisséries sobre a época da ditadura militar para expiar o seu passado de franco apoio ao golpe de 1964.

Quando viu que o candidato que apoiou, Collor de Melo, estava com os dias contados para o impeachment, colocou no ar em 1992 a série Anos Rebeldes para criar a falsa imagem da imparcialidade sobre uma história de amor em plena repressão da ditadura militar.

Agora, a Globo lança outra minissérie, Os Dias Eram Assim, novamente sobre o tema da repressão militar em um momento agudo de críticas por todos os lados sobre a participação decisiva da emissora no golpe político de 2016.

Como sempre, a Globo tenta exorcizar as “hordas bárbaras” que avançam do deserto do real. Porém, dessa vez todo aparato metalinguístico não será suficiente para abafar o barulho do seu silêncio.   -   (Fonte: Blog Cinegnose - AQUI).

................

Não me foi possível assistir ao JN, edição do dia da Greve Geral, 28, mas vi informativos e flashes pela manhã e à tarde. De fato, o constrangimento geral (todas as TVs) era indisfarçável, e em afiliadas de Teresina cheguei a ver, ao menos em uma mesa redonda, jornalistas locais se manifestando expressamente a favor das reformas em curso e praticamente atribuindo a Greve Geral (chamada de 'manifestações') a "coisa de sindicatos de trabalhadores". 

Mas, por que, afinal, querer saber como se comporta a mídia corporativa, especialmente a Globo? Simples: porque é importante estar informado sobre como procedem os donos da audiência no cenário nacional, os formadores ou 'formadores' de opinião e de senso crítico. É indispensável estar informado sobre o que se passa no País (e, por extensão, no mundo). Esta observação responde à indagação a seguir, de autoria de um leitor do blog Cinegnose:

"Assisto a todos os canais abertos de tv quase simultaneamente, pois que tenho o hábito de trabalhar assistindo tv, entre outras coisas. Faço o tal de 'zapeando', de modo que vi a cobertura da greve pela Record, pela Gazeta, tanto durante o programa de fofocas da manhã quanto no Jornal da Gazeta às 19:00 (com a maior má vontade do mundo por parte dela). Vi pela Bandeirantes, bem cedo, pela Record News, canal 42; em seguida vi pela Rede TV. Só não olhei no SBT, esqueci. Na Globo, não olhei porque sabia que não estava passando. Nessa cobertura, para mim desanimadora, o que parecia estar patente era o intenção de apequenar o movimento grevista. Tanto que senti um certo desânimo.
Ficou também evidente a brutalidade da repressão no país todo a partir de Brasilia, e a eterna pergunta que nos assalta diante dessa realidade:
'Onde está esse aparato policial todo quando precisamos dele para proteger a população?'
Pra reprimir tem polícia. Aí o estado se faz presente com toda a sua força.
Mas, humilde blogueiro, considerado o fato de que esse blog é seu e que, portanto minha opinião ou questionamento seja objeto apenas de sua particular apreciação (sem se tornar público, eventualmente), pergunto-lhe:
Se você odeia a Globo com todas as forças de seu generoso coração, por que diabos assiste a Globo? É pra ficar doente? Se por acaso a Globo é aquele remédio amargo que você é obrigado a tomar, por que não misturá-lo com outra coisa?
E falando em Globo e cobertura de greve, Sandra Annenberg foi a bola da vez dos internautas, que foram impiedosos com a sua costumeira hipocrisia risonha:
Mas, como diz o seu colega Paulo Henrique Amorim, citando Roberto Marinho,
'A Globo notabilizou-se mais pelo que deixou de noticiar do que pelas notícias que transmitiu'
Inté!
"


Postagens Relacionadas









OLD CARTOON


Roger Tetsu. (França. 1913-2008).
French Postcards - Obra do autor - 1954.

A CARTA DO DIA DO TRABALHO 2017


Mino Carta Dois Pontos

Parafraseando o título do livro do jornalista Newton Carlos, publicado pela Editora Codecri do antigo Pasquim, América Latina Dois Pontos, de 1978, trazemos aqui duas entrevistas de Mino Carta do canal da Revista Carta Capital no youtube, ambas coincidentemente às vésperas do Dia do Trabalho. A primeira, datada de 27 de abril deste ano de 2017, e a segunda, de 30 de abril de 2015. Além dos temas tratados com uma atualidade inequívoca, mas é na segunda entrevista que se referia sobre a Terceirização e que foi matéria de capa da edição da Revista naquele ano, e onde ele também fala de um outro encontro que houve na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, cujo evento prestava homenagens ao prof. Fábio Konder Comparato que também formulava um projeto para o Brasil, tal como agora com o prof. Bresser Pereira e outros. Mas ao final da entrevista, Mino Carta evoca o filme Os Companheiros, de Mario Monicelli, produzido em 1963, sobre as lutas operárias na cidade de Turim, Itália, na virada do século XIX. E é sobre esta belíssima obra que nos juntamos ao grande Editor e publicamos também o seu editorial no qual ele recorda de quando viu o filme em Nova York nos começos do ano seguinte ao de 1963, assim como de sua participação daquele encontro na Faculdade de Direito. (Jota A. Botelho).



Lutas vãs

Por Mino Carta (Em maio de 2015)

A religião do deus mercado nos devolve às vicissitudes do passado e aprofunda a desigualdade. E os trabalhadores? Que se moam
....


Um filme muito tocante ao contar uma história de operários explorados é I Compagni, Os Companheiros, de Mario Monicelli, um dos top ten da minha lista pessoal de diretores de cinema. Monicelli desenrola seu enredo em Turim, final do século XIX, onde a industrialização avança para o enriquecimento dos industriais e o esforço brutal dos trabalhadores obrigados a 14 e mais horas de trabalho diário.
A seu modo, uma peça épica sobre a luta operária, e nela trafega o pregador profissional de revolta, um Marcello Mastroianni anarcossindicalista, de barba e chapéu. Ficção atada solidamente a episódios e personagens autênticos de um tempo distante. Obra de 1963, a que assisti em Nova York nos começos do ano seguinte, em um dos dias de um estágio na Time-Life. Quando a palavra fim estampou-se sobre a tela, o público que lotava a sala ergueu-se e bateu palmas. Era mesmo uma história empolgante.
Quando penso nos efeitos inevitáveis da terceirização, e do precariado já instalado, me ocorre recordar o filme de Monicelli. Aquele industrial e aquele operário sumiram de vez, está claro, bem como os cenários em que se agitavam. Habitamos um mundo metamorfoseado pelo galope da, em mutação constante. Terceirização e precariado andam inexoravelmente na contramão, representam um amplo passo atrás a nos devolver a um passado de roupa nova, paradoxalmente sintonizado com o presente e, no entanto, capaz de reproduzir aqueles tormentos e vicissitudes.
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. É global, nesta nossa Terra sempre incapaz de dar guarida aos seus santos, como diria Bernard Shaw. A progride juntamente com a irracionalidade. E com a prepotência de um sistema que aprofunda o abismo entre ricos e pobres. O mal está diagnosticado, sua evidência, aliás, é insuportável, mas os poderosos do mundo recusam-se a aviar a receita óbvia para reconduzir a humanidade em peso ao domínio da razão. Não a consideram do seu interesse.
A regra imposta pelo credo neoliberal, a religião do mercado, privilegia a especulação, humilha a produção e penaliza inexoravelmente o trabalho. Inescapável reflexão, nuvem preta a ensombrecer o dia 1º de Maio. Pergunto aos meus melancólicos botões quantos empresários nativos já aderiram alegremente ao rentismo. Suspiram: muitos, muitos...
De paletó abotoado e gravata, na noite de terça 28 fui à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que em tempos remotíssimos frequentei como estudante, para participar do encerramento de um ciclo de homenagens ao professor Fábio Konder Comparato. Tratou-se, de fato, de uma aula magna ministrada pelo mestre, sábio elegante e desassombrado. Ele próprio supõe-se pessimista, mas não concordo: formula até um plano para redimir o Brasil. A longo prazo, admite, destinado, porém, a mobilizar a sociedade civil e a quebrar de vez a espinha da oligarquia. Eu não consigo imaginar este dia radioso, sequer contamos com os sans culottes.
Autorizado a tomar a palavra, declarei-me aluno do homenageado, e feliz por isso, ao perceber todo o peso da herança de três séculos e meio de escravidão, pelo qual continuam de pé a casa-grande e a senzala, e se quisermos, os sobrados e os mocambos, presentes nas nossas metrópoles. De todo modo, sem padecer da mesma herança, o resto do mundo também sofre o mal da desigualdade, cada vez mais monstruosa, fiel do Moloch neoliberal, entregue à oligarquia das multinacionais que mandam mais, infinitamente mais, do que os governos nacionais.
Receio que para piorar a nossa situação, e apesar das suas inesgotáveis potencialidades, mas com a agravante do seu atraso largamente demonstrável, o Brasil já se adéque ao viés global.  -  (AQUI).

................
Enquanto isso, no Brasil de 2017, persistem as mazelas históricas e, para ensombrecer o dia 1º de Maio, os trabalhadores não poderão - conforme decisão judicial de ontem, 29, atendendo a pedido formulado pela prefeitura de São Paulo - promover o ato comemorativo há dias programado para realizar-se na Avenida Paulista. Surrealismo é por aí.

ASSIM NÃO BRINCO MAIS


Petar Pismestrovic. (Áustria).

sábado, 29 de abril de 2017

GREVE GERAL: O SUCESSO À REVELIA DA GRANDE MÍDIA


Greve Geral: os enquadramentos e a aula de (não) jornalismo

Por Roberto Bitencourt da Silva

Observando o desespero demonstrado nas expressões faciais dos repórteres de campo, assim como o desconforto manifestado por analistas nos estúdios televisivos dos grandes meios de comunicação, sobretudo das Organizações Globo, pode-se afirmar que a greve geral alcançou extraordinário êxito.
Teve a feliz capacidade de repercutir e expressar as reivindicações, os protestos, as angústias e os pontos de vista de milhões de trabalhadores brasileiros. Mesmo que demasiadamente a contragosto, a grande mídia se vê forçada a noticiar a força mobilizatória do mundo do trabalho.
As narrativas e abordagens, como habitualmente ocorre naquilo que importa aos interesses populares, tenderam a demonizar os manifestantes e os grevistas. As suas vozes, praticamente silenciadas, significativamente desconsideradas pelo noticiário. Aos trabalhadores grevistas e manifestantes não é conferida qualquer legitimidade para falar.
Vandalismo, baderna, restrição do direito de ir e vir, desrespeito com o espaço público, caos no país, eis alguns contornos sublinhados pelo pseudojornalismo televisivo. Uma aula prática de conservadorismo e unilateralidade do noticiário, assim como do significado simbólico dos enquadramentos. Senão, vejamos.

Segundo estudiosos da imprensa, o enquadramento das notícias representa um dos fatores mais relevantes para a análise sobre o perfil da informação veiculada. Ele expressa a forma de organizar o pensamento, isto é, compreende não apenas o que se noticia, como também o modo pelo qual são lançadas as luzes sobre um determinado assunto.
Os enquadramentos jornalísticos são os “ângulos que permitem ordenar e interpretar os fatos registrados”, conforme Maxwell McCombs, buscando afetar o modo de recepção, de interpretação do espectador/leitor. Eles também denotam o propósito de moldar as maneiras de “regular as disposições afetivas e éticas” do público, de acordo com Judith Butler.

Ideias, valores, interesses corporativos e de classe, formas de enxergar a vida e a sociedade, são nuances importantes que atravessam um enquadramento noticioso, incidindo na seleção e edição de imagens, no padrão dos relatos e nas vozes privilegiadas em torno dos acontecimentos.
Até aqui, convenhamos, nossas observações refletem razoável grau de subjetividade e de abstração. Nem sempre é possível observar e registrar de maneira tangível esse fenômeno jornalístico. Todavia, ontem foi fácil, demasiadamente fácil.
Tomando como referência especialmente o noticiário da Globo News, para além das palavras e narrativas, os ângulos priorizados para a edição das matérias ficavam evidentes nas imagens que tenderam a predominar: ou os repórteres faziam a cobertura ao lado e logo atrás das forças policiais, ou o faziam à distância, do alto dos prédios.   
Tradução física material, do lugar de escolha da cobertura noticiosa da Globo: o ponto de vista, o ângulo da polícia, ou à grande distância, em função da frágil credibilidade perante o público dos manifestantes grevistas.

Sem qualquer menção prévia do noticiário dos meios massivos de comunicação, a greve alcançou inúmeras categorias de trabalhadores, demonstrando a força, mesmo silenciosa, que as classes populares e medianas possuem.
À revelia da Globo e de demais grandes veículos reacionários, que terão o desprazer de constatar que importantes frações do Povo Brasileiro têm capacidade de ação, escolha e pensamento independentes das suas abordagens e enquadramentos diários.
Esse 28 de abril será o primeiro grande passo para a reversão do lastimável estado de coisas imperantes no País, em que pesem os bombardeios simbólicos de um jornalismo acobertado e que procura se "proteger" à sombra do bombardeio físico e arbitrário das forças policiais a soldo do grande capital. (Aqui).
....
(Roberto Bitencourt da Silva é historiador e cientista político).

................
A Grande Mídia está onde sempre esteve. A expressão "Greve Geral", coitada, foi jogada na lixeira da sonegação: só se admite falar em 'protestos', 'manifestações', por aí. Não causará espanto se a Grande Organização alegar, surrealmente: "Calma, gente, estamos evoluindo: desta vez agimos melhor do que na festa de aniversário... digo, no comício das Diretas Já, lembram?"

OLD CARTOON


André François. (Romênia. 1915-2005).
Em algum lugar no passado.

CARTUM DELIRANTE


J Bosco.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

VAGABUNDO, VÍRGULA


"Direitos que você tem hoje, como aposentadoria, férias, 13o salário, limite de jornada de trabalho, descanso aos finais de semana, piso de remuneração, proibição do trabalho infantil, licença maternidade não foram concessões vindas do céu. Mas custaram o suor e o sangue de muita gente através de diálogos e debates, demandas e reivindicações, paralisações e greves, não só no Brasil, mas em todo o mundo.
É função de empregadores e políticos fazerem parecer que foram eles que, generosamente, ofereceram direitos. E função da História contada pelos vencedores registrar isso como fato inquestionável, retirando do povo, a massa muitas vezes amorfa e sem rosto, o registro dessas vitórias.
Desde que as Reformas da Previdência e Trabalhista foram apresentadas, o governo federal teve que ceder em alguns pontos devido à pressão social. Foram poucos, sem dúvida. Mas isso beneficiou desde o trabalhador assalariado que vê a vida passar do sofá da sala, chamando de ''comunistas'' todos os que reclamam das reformas, até aqueles que resolvem ir à luta. Sim, ironicamente muita gente se beneficia do resultado obtido por aqueles que costumava xingar.
Não é de hoje que, na tentativa de menosprezar uma reivindicação de trabalhadores, nega-se a eles exatamente essa identificação. Afirma-se que quem entra em greve não é trabalhador porque, naquele momento, não está trabalhando. Aplicando essa lógica absurda a outros exemplos, quem viajar para fora do Brasil deixaria de ser brasileiro.
Ou seja, nessa lógica, o trabalhador só merece ser tratado como produtivo à sociedade se estiver sempre trabalhando. Caso exerça seu direito, previsto na Constituição, de parar para protestar, torna-se o oposto – que, numa concepção distorcida, significa preguiça e indolência.
É paradigmático, portanto, que o prefeito de São Paulo, João Doria, tenha chamado grevistas de ''vagabundos''na manhã desta sexta (28). Ele, que defende as Reformas da Previdência e Trabalhista, tem criticado duramente o movimento. Afirmou que, “neste confronto, só a população que trabalha, que é honesta, é quem perde''.
Ele tem todo o direito a ter sua opinião e a expressá-la quando quiser. Mas também temos a liberdade de lembrar que, durante muito tempo, a polícia exigiu a carteira de trabalho para definir se alguém era ''uma pessoa de bem'' por aqui. A caracterização como ''vagabundos'' daqueles que resolvem cruzar os braços e protestar por direitos não é nova e nem foi inventada por políticos brasileiros.
Quem visita a cidade de Chicago, nos Estados Unidos, encontra uma frase gravada em um monumento: ''Chegará o dia em que o nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que vocês estrangularam hoje''. Ele foi erguido em memória de uma greve que começou no dia Primeiro de Maio de 1886, exigindo a redução da jornada de trabalho para oito horas por dia, tocada por trabalhadores que foram chamados de vagabundos. Resultado: a polícia abriu fogo contra a multidão, mas a data foi escolhida para ser um dia de luta em todo o mundo por condições melhores de vida. Menos nos Estados Unidos, em que o Labor Day é na primeira segunda de setembro.
Só o trabalho gera riqueza. E o silêncio de trabalhadores, que se reconhecem como tais, percebem a injustiça que, muitas vezes, recai sobre eles e resolvem cruzar os braços, não apenas aumentou salários ou criou aposentadorias, mas já ajudou a derrubar regimes, a democratizar países, a mudar o rumo da história.
Mahatma Gandhi pediu para que trabalhadores cruzassem os braços e entrassem em greve, não por melhores salários, mas pela independência da Índia junto ao Reino Unido. Martin Luther King fez o mesmo pelos direitos civis de mulheres e homens negros diante do racismo institucionalizado nos EUA. É dele a frase: ''a greve, no fundo, é a linguagem dos que não são ouvidos''.
Nelson Mandela foi chamado de vagabundo por querer que a África do Sul parasse contra o apartheid. A paralisação das operárias russas contra a fome e contra a participação do país na Primeira Guerra precipitou os acontecimentos que desencadearam a queda do regime imperial em 1917. Esse povo não protestou apenas em finais de semana e feriados, ou seja, em seu ''tempo livre''.
Quero comparar essas figuras citadas com nossos líderes nacionais? Nunca, seria um crime histórico. O que se discute aqui é até que ponto somos capazes de furar a programação que nos foi incutida, de criminalizar quem cruza os braços. Você pode discordar da greve. Mas não julgue alguém que concorda sem subsídios para tanto. Manifestações que questionam a desigualdade e a injustiça social, mais do que a política em si, tendem a ser reprimidas pela força pública. São vistas como subversivas. As ''ordeiras'', que não mexem com a estrutura econômica e social do país, não. Têm direito até a catracas de metrô liberadas.
Tudo isso acaba por criar uma ''nova língua''. Paulo Mathias, prefeito regional de Pinheiros, município de São Paulo, gravou um vídeo mostrando que trabalhadores iriam dormir nas dependências do prédio para trabalharem nesta sexta de greve geral. Nele, diante de trabalhadores visivelmente constrangidos, afirmou: ''Sou a favor do direito à greve, mas não em dia de trabalho.'' Foi parabenizado pelo chefe. O que ele disse é equivalente a pedir X-burguer sem queijo ou um cachorro-quente sem salsicha.
Temos diversas formas de silêncio. O poder não está no silêncio das bocas fechadas que aceitam as coisas como elas são porque acreditam que nada pode mudar e que ficam felizes se ganharam uma TV do sindicato pelego no feriado. Mas dos braços parados que se negam a produzir riqueza sem que um diálogo aberto e franco com os empregadores seja estabelecido. Trabalhadores são fortes. Pena que se esquecem disso."



(De Leonardo Sakamoto, em seu blog atrelado à Folha, post intitulado "'Vagabundo' não é quem faz greve. É quem se nega a estudar história" - AQUI.
Irretocável).

CARTUM DO DILÚVIO


Jarbas.

O MANJAR DO FURA-GREVE


O fura-greve e o camarão servido no jantar

Por Carlos Motta

Séculos atrás, pouco depois que comecei a trabalhar como "copidesque", ou, fora do jargão jornalístico, como redator, do recém-criado Caderno de Economia do Estadão, e comecei a conhecer meus colegas de trabalho, percebi que havia, entre alguns deles, algo estranho, uma espécie de rixa.
Em dois deles, um redator, como eu, e o outro o editor-assistente, ambos veteranos no jornal, a desavença se manifestava abertamente.
Não que um ofendesse o outro, a treta se manifestava de maneira mais sutil, algumas vezes com uma profunda ironia.
Como em certo dia, quando o redator, ao ver o colega se levantar de sua cadeira, me disse:
- Motta, pergunta para o ..... se o camarão que ele comeu aqui no jornal na greve dos jornalistas estava gostoso.
Não entendi nada e pedi que ele me explicasse o sentido daquela pergunta.
- Você não sabe? É que o ..... e mais alguns vieram trabalhar durante a greve. Entraram no jornal escondidos num camburão da polícia. Como recompensa, jantaram camarão todos os dias.
A greve dos jornalistas ocorreu em 1979.
Foi a segunda e última feita pela categoria em São Paulo, reivindicando, entre outras coisas, aumento salarial de 25%.
O movimento fracassou e as consequências imediatas para a categoria foram desastrosas: muitos dos profissionais que não se esconderam nos camburões da polícia nem jantaram camarão acabaram perdendo seus empregos - os donos das empresas jornalísticas vivem, até hoje, como o prefeito cashmere de São Paulo, na era pré-revolução industrial, no pré-capitalismo.
Mas a greve teve outro efeito nos jornalistas paulistas: ela permitiu que as máscaras caíssem, ou seja, que todo mundo soubesse quem estava de um lado, quem estava no muro, e quem estava do outro lado, o patronal.
Da mesma forma que aquele editor-assistente do Estadão que jantou camarão como recompensa por furar a greve nunca se livrou das gozações dos colegas que comeram o pão que o diabo amassou, hoje, quando o país vive tempos conturbados e se promove uma greve geral como forma de protesto contra as "reformas" empreendidas por um governo golpista, vai ficar mais claro quem é quem.
Foi assim no movimento das diretas já.
Foi assim com os caras pintadas na era Collor.
E está sendo assim agora: picaretas, oportunistas, canalhas, fascistas, e toda espécie de entreguistas,vendilhões e lesa-pátrias serão facilmente reconhecíveis.
Muitas máscaras voltarão a cair.   -  (Fonte: aqui).

................
Como dizem a grande mídia, o alcaide da pauliceia e os áulicos do planalto: 
"Greve? Que greve?! O que houve foram manifestações isoladas, lideradas por maus brasileiros preguiçosos, que não querem trabalhar. Não fale em crise, trabalhe!!!"