segunda-feira, 16 de outubro de 2017

BRASIL PRETENDE DESMORALIZAR O COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO


Gilmar.

A REAÇÃO AOS USURPADORES


Mariano.

ECOS DO SUPLÍCIO

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Como já observado aqui, "este blog publicou alguns posts sobre a trágica morte do reitor Cancellier, da Universidade Federal de Santa Catarina, ocorrido recentemente. Enquanto a OAB Nacional divulgou nota de repúdio - AQUI -, a grande imprensa brasileira, unanimemente, limitou-se a tratar o suicídio do reitor como ato desesperado de alguém com 'culpa no cartório', descartando  o acionamento do requerido jornalismo investigativo (alternativa fora do alcance da 'blogosfera'), que certamente traria à tona as reais circunstâncias do caso e os juízos de valor externados por estudiosos do Direito e outros. A Folha de S. Paulo seguiu a 'corrente impassível', comportando-se burocraticamente, como se convicta de que eventuais omissões poderiam ser 'compensadas' pela mea culpa global semanalmente oferecida por sua ombudsman. Mas há quem considere que esse assunto tem potencial para ocupar lugar relevante na História...".

Já neste post AQUI, sustentamos - e agora ratificamos - que "o martírio do reitor Cancellier já ocupa lugar marcante na História do Brasil", e demos conta de que "o senador Roberto Requião (PMDB-PR) declarou - veja aqui - que o seu projeto sobre abuso de autoridade, em trâmite no Congresso, será intitulado 'Lei Cancellier'".

Há outros posts, todos seguindo a mesma trilha dos acima apontados. Não nos compete atribuir culpa a quem quer que seja, como que cassando, a priori, a presunção da inocência. Mas o caso deveria repercutir - e ser escrutinado - na exata medida de sua magnitude. O suplício do reitor Cancellier, para dizer o mínimo, mereceria investigação rigorosa, caloroso debate nacional.

A seguir, a manifestação do jornalista Luis Nassif sobre o assunto.



Lava Jato, o caso do reitor e a banalização do mal

Por Luis Nassif

Assim como o Ministro Luís Roberto Barroso, o reitor Luiz Carlos Cancelier de Olivo, da Universidade Federal de Santa Catarina, era advogado. Como Barroso, também era professor. E, da mesma maneira que Barroso, defendia a Lava Jato.
Havia diferenças. As opiniões de Cancelier eram restritas ao seu entorno; as de Barroso ecoam pelo país e servem de ração vitaminada para o fortalecimento da convicção dos pittbulls do direito, de que todos os abusos serão perdoados.
A Lava Jato era para ser o teto, o momento excepcional em que se poderiam cometer todas as atrocidades legais, porque a serviço de uma missão santa: a destruição de um partido político. Mas depois de provar carne fresca, quem trará de volta as hienas para o cercado das restrições legais?
Analise-se essa delegada Erika Marena.
Como esquecer os momentos de glória, o prazer das coletivas aos jornais, o gozo inenarrável de destruir a alma do réu? Pode existir demonstração maior de poder, do que o de transformar uma simples convicção, mesmo que amarrada com barbantes de contextualizações imaginárias, na pena de morte do caráter do réu, antes mesmo que algum Juiz diga alto lá, vocês não dispõem desse poder absoluto. Mas, como, não é isso que o Ministro Barroso insinua nas suas pregações?
Quando deixou a Lava Jato e saiu de Curitiba em direção ao bucolismo de Florianópolis, de volta à pasmaceira das atribuições rotineiras, a delegada Erika se viu acometida da síndrome da abstinência, dos que se viciaram em violência, em abusos, em holofotes, no exercício do poder absoluto de apontar para uma imprensa sequiosa de sangue o alvo a ser exterminado. Não há exercício de poder maior do que o de decretar a morte moral de uma pessoa.
Como trazer de volta aqueles momentos únicos? Como se acostumar novamente à modorra de uma atividade comum, a ter que submeter suas investigações a procuradores responsáveis, a juízes íntegros?
Aí, surgem as investigações sobre desvios de recursos em uma Universidade federal. Penalmente, um tema menor, sujeito a uma investigação burocrática, sem riscos maiores, com os dados disponíveis na CAPES, bastando conferir as notas de prestações de serviço, identificar os desvios e punir os infratores. Esse trabalho seria feito com um pé nas costas pelas áreas técnicas da Polícia Federal, o único setor que ainda faz investigações, já que os delegados se especializaram no bem-bom de criar uma narrativa qualquer, recheá-las com declarações arrancadas a fórceps de prisioneiros, sem a necessidade de apresentação de provas, comportando-se igual a jornalistas preguiçosos que inventam matérias sensacionalistas e recheiam com declarações em off.
E, assim como o jovem delegado deslumbrado de Curitiba, que mobilizou mil policiais para uma mera operação de levantamento (sobre) corrupção na fiscalização sanitária do Estado, a delegada Erika quis se mostrar à altura da fama de durona. Solicitou cem policiais do Maranhão, imaginando-se em um filme de terceira categoria.
Cem policiais, como se o alvo fosse Carlinhos Cachoeira, que continua livre, o Comendador Arcanjo, que continua solto, Michel Temer, que continua presidente.
Bastariam sete intimações a professores, que jamais se recusariam a atender. No país que enfrenta a maior crise fiscal da sua história, decidiu-se pela mobilização de cem policiais de outro estado, atuando como figurantes para que a delegada Erika pudesse repetir os momentos da glória da Lava Jato.
Sete professores foram arrancados de sua casa, com a condução coercitiva, sem sequer terem sido intimados a comparecer. O reitor foi detido com base na panaceia jurídica atual: a obstrução de Justiça, embora o máximo que se levantou contra ele foi suposta tentativa de obstrução de um inquérito administrativo, conforme mostrou o repórter Marcelo Auler.
Arrancados da cama, foram submetidos a uma revista vexatória, que incluiu revista no ânus E uma outra filha da Lava Jato, a juíza Janaína Cassol Machado, tratou de endossar todos os abusos, porque o Ministro Barroso avisou que todos os abusos são peixe pequeno perto do grande objetivo nacional, de combate à corrupção.
Aliás, duvide-o-dó que o escritório de advocacia de Barroso passasse incólume por uma investigação nos moldes preconizados por ele para a Lava Jato.
A grande ópera trágica se completa com as associações de juízes federais, procuradores da República e delegados da PF, endossando esse gozo doentio de seus associados pela violência gratuita.
E, do sepulcro do Supremo, a única voz de resistência foi a do Ministro Gilmar Mendes. De Luís Roberto Barroso, o silêncio obsequioso. Nenhum gesto de solidariedade ao colega vítima de uma brutalidade policial. Nenhum gesto de apoio aos agressores, porque a morte do reitor rompeu a unanimidade. E Barroso só cresce em ambientes de unanimidade, aquelas que transformam fracos em fortes, tímidos em falantes, humanistas em déspotas, e, como situação limite, revelam o caráter das pessoas.
Através de seus porta-vozes na mídia, a Lava Jato anuncia a super-operação antes do final do ano, a arrancada final para terminar com fecho de cobre e sangue a grande cruzada moralista, que ajudou a colocar no poder a pior quadrilha da história.
Cancelier provou, da maneira mais trágica, a lógica inevitável dos movimentos de intolerância. Para legitimar a operação, levantou-se seu passado de PCB. Na cobertura, escondeu-se seu presente, de defensor da Lava Jato, porque aí se chegaria à única bala de prata capaz de deter o monstro: a constatação de que a Lava Jato avança não apenas contra “eles”, mas também contra “nós”.
Mais que nunca, vale Bertold Brecht:
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
....
(Fonte: Jornal GGN - aqui -. 
Sugestão de leitura: "Suicídio do reitor: 'Agora, é claro, não aparecerá responsável'", por Marcelo Auler - aqui).

REFLEXÕES VERÍSSIMAS (III)



MEMÓRIA
Até hoje, ninguém que confiou na falta de memória do Brasil se arrependeu.

MUDANÇAS
As nossas elites não mudaram muito desde dom João VI. Vamos lhes dar mais um pouco de tempo.

NOTÍCIAS
Um dia é da notícia, o outro é do desmentido.

OURO
Numa hipotética modalidade de corrupção sem barreiras, o Brasil levaria o ouro, a prata e o bronze – para a Suíça.

PACIÊNCIA
No Brasil, as classes inferiores cumprem seu papel e dão às elites repetidos exemplos de bom senso, honestidade e, principalmente, contenção e paciência. Quando a paciência acaba – como na questão das invasões de terra –, não falta quem se sinta ultrajado, como se os pobres estivessem, irresponsavelmente, esquecendo as regras da etiqueta.

PARTIDOS
Houve um tempo em que três letras definiam um homem. Alguém dizia “Eu sou PTB” e você sabia com quem estava falando. “Eu sou UDN”. Você sabia com quem estava falando. E saía de perto. Hoje trocam de partido, fazem alianças estranhas… Conseguiram que as letras não signifiquem mais nada. Uns FDP.

PMDB
O partido que transformou “heterogeneidade” em palavrão.

PRIVILÉGIOS
Confundir ordem e normalidade com seus próprios privilégios é um velho hábito de qualquer casta dominante.

SALVADORES DA PÁTRIA
Do próximo que se apresentar como nosso salvador, vamos exigir prova de mãe virgem e no mínimo três milagres – em cartório!

TAXISTAS
O Brasil vai mal porque as únicas pessoas que sabem como governá-lo estão dirigindo táxis, em vez de no governo. Os motoristas de táxi  têm a solução para todos os problemas do país ou – dependendo do tamanho da corrida – do mundo. Um dia, quando estivermos na iminência do caos terminal (pode ser amanhã), uma revolução popular colocará os homens certos nos lugares certos. Os motoristas de táxi, os dentistas e os barbeiros assumirão o poder, colocarão em prática suas teorias e resolverão todos os nossos problemas.

....
Ver!ssimas frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo / Luis Fernando Verissimo : organização Marcelo Dunlop : seleção de ilustrações Fernanda Verissimo e Fraga : Editora Objetiva).

DIA DO PROFESSOR


Duke.

domingo, 15 de outubro de 2017

DOIS REGISTROS

       (Errata: Onde se lê 'um décimo', leia-se 100%, sem concessões)

1. Da serventia de certas delações: as confissões do notório Funaro serviram para embasar a denúncia II contra o senhor Temer, mas uma delas - a de que o igualmente notório Eduardo Cunha recebeu dinheiro para bancar parlamentares pró impeachment - parece ter sido solenemente ignorada pelo senhor Janot, que emitiu parecer contrário ao acolhimento do recurso contra o impeachment, dirigido ao STF pela defesa da presidente Dilma Rousseff "nos idos" de 2016. De qualquer modo, o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo, que agora se manifeste sobre o assunto, e que a Corte Suprema cumpra, enfim, sua obrigação de julgar.
(Adendo em 16.10: "Defesa vai usar delação de Funaro para pedir anulação do impeachment" - AQUI).

2. O senhor procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, em sua conta no Facebook, ao tempo em que lamenta a 'tentativa de esvaziamento da Lava Jato' a partir da recente deliberação do Supremo sobre a quem cabe dar a última palavra relativamente à aplicação de medidas cautelares contra membros do parlamento, registra:

"Depois da última decisão do STF, é compreensível (sic) as tentativas da AGU, a mando de Temer, de tentar reverter a decisão de prisão após a decisão de segundo grau. Afinal, não há mais oposição das ruas às tentativas de acabar com o pouco conquistado."

São compreensíveis as tentativas da Lava Jato, a mando dos seus, de tentar ver consolidada a decisão de prisão após a decisão de segundo grau. Ironias à parte, deveria o veterano fiscal da Lei saber que tal medida, mesmo após o histórico escorregão do "Guardião" (que, por sinal, dá sinais de que poderá corrigir-se proximamente), é INCONSTITUCIONAL, independentemente da opinião das ruas.

DIA DO PROFESSOR


Carlos Ruas.

REFLEXÕES VERÍSSIMAS (II)



HIPOCRISIA
No Brasil parece não haver escolha entre ser bobo e ser cínico.

IDEOLOGIAS
É só você decidir se é de meia esquerda, um quarto de esquerda, três quartos de esquerda, direita dissimulada, direita responsável ou direita Gengis Khan, e há um partido pronto para você no Brasil.

IGUALDADE
Todo brasileiro é igual perante a lei, contanto que não seja pé de chinelo, porque aí é culpado mesmo.

IMPREVISÍVEL
O Brasil não é mais um país imprevisível. É um país tristemente previsível.

INDEPENDÊNCIA
Todos deviam ser donos do seu nariz, mas infelizmente isto não acontece. Num país como o Brasil o sonho do nariz próprio continua inalcançável para a maioria.

INTRIGA
A intriga é a única indústria de Brasília.

JEITINHO
Nós brasileiros somos, paradoxalmente, a raça do jeito pra tudo e a raça que não tem jeito mesmo.

JORNAL
Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.

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(Ver!ssimas frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo / Luis Fernando Verissimo : organização Marcelo Dunlop : seleção de ilustrações Fernanda Verissimo e Fraga : Editora Objetiva). 

DOMINGO É DIA DE ANÉSIA


Will Leite.

TEMPOS ESTRANHOS (II)

Miguel.
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Tempos estranhos, esses. O gás de cozinha, coisinha simples, baratinha, que está longe de comprometer o orçamento dos pobres, sobe 48% em quatro meses...
Eis que entra no ar o repórter Global:

- O preço do gás de cozinha aumentou 48% em quatro meses, MAS isso decorre da catástrofe ambiental que atingiu o sul dos Estados Unidos!

E assim, após devidamente esclarecido o problema, a paz, a tão desejada paz, volta a reinar nos lares brasileiros.

TEMPOS ESTRANHOS

Nani.

Laerte.

SOBRE A TEORIA DA EVOLUÇÃO

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Evolucionismo, Criacionismo (e sua 'variante' Desigh Inteligente - aqui)... eis o 'universo particular' por onde circulam especulações, crenças e convicções acerca da origem da vida. Imagine-se, por exemplo, o 'universo' de quem transita desde a adolescência entre abordagens sobre Darwin/Darwinismo e os Testamentos Bíblicos, com passagens por Daniken (sim, Daniken, circa 1972 e desde então!)... Todas as fontes (e 'fontes') se revelam propícias, se o tempo for generoso e oferecer oportunidade...


Sobre a teoria da evolução

Por Gustavo Gollo

Questões introdutórias
Poucas ideias foram tão aviltadas quanto a teoria da evolução. Com enorme frequência, a ignorância tem sido distribuída com muito mais prodigalidade que o conhecimento. Mais de um século e meio após a apresentação das ideias de Darwin, elas ainda são vastamente ignoradas em muitas partes do planeta. Confesso ter dificuldade em compreender as causas dessa falha, embora consiga ver uma delas com certa clareza.
Parte considerável dessa ignorância decorreu da especialização excessiva, flagelo que varreu o século XX e que está em vias de ser saneado, espero. Essa disposição lastimável costumava antolhar os cientistas, impossibilitando-lhes a compreensão de qualquer assunto que não correspondesse a seu estreitíssimo campo de interesse, alguma sub-sub-área de interesse compartilhado por umas poucas dúzias de outros monomaníacos pelo mundo, e apenas por eles, frequentemente desconectada até de seus próprios fundamentos.
Estudos sociológicos talvez acabem por desvendar a índole de tais criaturas, os especialistas, como um subproduto das linhas de produção estabelecidas pela revolução industrial. Seja como for, com enorme frequência, eminentes doutores, possuidores orgulhosos de um vasto cabedal de conhecimentos sobre algum detalhe irrisório de qualquer picuinha, não conseguiam conectar sua sabedoria com os fundamentos do conhecimento de sua própria área, fato estarrecedor que não permaneceu despercebido.
Olhares atentos, e saudosos de tempos passados, notaram que a tão proclamada sabedoria dos cientistas era, muitas vezes, sustentada por eles sem qualquer argumentação, mas com apelos a dogmas supostamente incontestáveis contidos em seus alfarrábios. Muitos religiosos reconheceram, nessa prática, seus próprios hábitos, quando eram, eles mesmos, os detentores da sabedoria, sustentada por seu livro sagrado, causando-lhes indignação a substituição de seus conhecimentos sagrados por dogmas moderninhos diluídos em uma vasta profusão de compêndios atualizados a cada nova edição.
*Vale notar que, nas regiões rurais, onde as chuvas governam o plantio e, consequentemente, o cotidiano dos habitantes locais – os agricultores –, os religiosos protagonizam costumeiramente, até hoje, danças da chuva, durante as quais rezam e entoam cânticos esganiçados em longas procissões, para que as divindades se compadeçam e se encarreguem de promover a chuva.
Mais ladinos que os dogmáticos doutores antolhados em suas hiperespecializações, no entanto, pastores protestantes perceberam um rico filão a ser explorado entre as hostes de especialistas incapazes de defender os fundamentos de seus conhecimentos com argumentações racionais. Trataram, assim, de desafiar os sábios doutores, frequentemente ignorantes quanto a tudo o que não pertencesse à sua minúscula subárea. Imbuídos do propósito de restabelecer a supremacia de seu livro sagrado sobre os compêndios moderninhos dos especialistas, ousados pastores dirigiram-se ao campo do adversário, adentrando as universidades de bíblia em punho, em desafio à pregação dos doutores.
Em defesa da teoria da evolução, fundamento de toda a biologia, tais especialistas empunharam seus livros, contrapondo-os ao antigo e ultrapassado livro dos religiosos – de acordo com seu ponto de vista –, para dali sacarem referências fortemente embasadas em outras referências, por sua vez sustentadas por outras, também fundamentadas sucessivamente por outras, até as náuseas.
Foi assim, empunhando seus alfarrábios abarrotados de referências rigorosamente embasadas em outras referências que os sábios especialistas se lançaram contra o ataque dos pastores armados com seu livro sagrado e com a lábia dos que fazem do convencimento o seu meio de vida.
Por vários locais, os embates se sucederam, contrapondo dogma contra dogma, deixando os pobres especialistas em polvorosa, perplexos e temerosos, incapazes de conter as arremetidas dos ladinos pastores que, desse modo, fortaleciam suas próprias imagens ante seus rebanhos, clamando também pela retomada de seu antigo poder alicerçado em seu livro sagrado.
Pobres especialistas.
Creio ter sido essa a causa principal da má fama imputada à teoria da evolução.
Mas, haverá salvação para tão má afamada teoria? Ou será ela um mero conjunto de disparates caricaturais?

Também creio que a causa da derrota tenha sido a ignorância. Talvez tenha sido o hábito de exigir referências rigorosamente embasadas que permitiu que um enorme contingente de especialistas da área biológica nunca tivessem lido o clássico de Darwin, “Sobre a origem das espécies”. Surpreendentemente, poucos desses especialistas têm mais que uma vaga noção de evolução, o fundamento de toda a biologia. Teria sido preferível conhecer os argumentos às referências.
Prometi em texto anterior (especiaçãoapresentar minha própria versão da teoria, farei isso amanhã. Achei conveniente que tal apresentação fosse precedida por estes prolegômenos.
Minha versão da evolução se destina a todos os jovens inteligentes, os que já possuem ideias preconcebidas dificilmente as mudarão. Além deles, convido à leitura, também, precipuamente, os oriundos das áreas exatas, estudantes e profissionais de computação, matemática, física, e engenharias, creio que serão eles os mais interessados em minha versão da teoria. Acredito que todos os interessados em sistemas complexos farão proveito dessa maneira de ver o mundo que talvez os surpreenda.
Mais que tudo, prometo apresentar ciência viva, vibrante e original.  -  (Fonte: aqui).

sábado, 14 de outubro de 2017

TRUMP ROMPE ACORDO COM IRÃ, QUE O MUNDO APOIA

Marian Kamensky. (Áustria).
....
- ...exceto Israel.
- Off course!

A PULGA MACHADIANA NUM TEMPO DE VELHAS DELAÇÕES


A velha pulga atrás da orelha de Machado de Assis

Por Sebastião Nunes

“Ia eu a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Mata-Cavalos, o mês novembro, o ano é um tanto remoto, mas não quis trocar as datas de minha vida só para agradar as pessoas que não amam histórias velhas; o ano era o de 1857.

– Dona Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

– Que dificuldade?
Dona Glória quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.
– A gente do Pádua?

A DELAÇÃO DE JOSÉ DIAS
“– Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.
– Não acho. Metido nos cantos?
– É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas corressem de maneira que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos; parece-lhe que todos têm a alma cândida...
– Mas, senhor José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade. Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze a semana passada; são duas criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; dali vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?
Tio Cosme respondeu com um “Ora!” que, traduzido em vulgar, queria dizer: “São imaginações de José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?”.
– Sim, creio que o senhor está enganado.
– Pode ser, minha senhora. Oxalá tenha razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...
– Em todo caso, vai sendo tempo – interrompeu a mãe de Bentinho. – Vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.
– Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o Império...

OJERIZAS CLERICAIS
“– Governou como a cara dele! – atalhou Tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.
– Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.
– Você o que quer é um capote; ande, vai buscar o gamão. Quando ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missas atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?
– É promessa, há de cumprir-se.
– Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?
– Verdade é que cada um sabe de si – continuou Tio Cosme; Deus é que sabe de todos. Contudo uma promessa de tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isso é coisa de lágrimas?
Minha mãe assou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que Tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exortava: “Prima Glória! Prima Glória!” José Dias desculpava-se: “Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo. Um dever amaríssimo...”.

A PULGA QUE PULA
– Não me fiz padre, e deu no que deu – dizia Dom Casmurro falando às paredes. – Antes houvesse cumprido o destino traçado pela promessa de minha mãe.
Na casa da Rua de Mata-Cavalos o Solitário lembrava o passado e cuidava para que a dor, de mão com a saudade, não o esmagasse.
– Não me fiz esperto, e deu no que deu – repetia Machado de Assis, pensando que seu destino e o de sua criatura terminavam por confundir-se.
Lado a lado, na parede os retratos de Capitu, Escobar, Carolina e do português desconhecido, abandonado do outro lado do Atlântico, aquele que sempre botava uma pulga saltitante atrás da orelha do velho escritor, riam na sua cara.
Machado e Dom Casmurro não se importavam com as risadas.
– Bons tempos – lamentou-se o Velho Bruxo –, em que as delações premiadas não passavam de mexericos sobre namoros infantis.
– Ótimos tempos – ecoou Dom Casmurro, e fechou-se em copas.  -  (Aqui).

BRASIL ATUAL ENQUADRA A CULTURA


J Bosco.

PLATITUDES E PLANALTICES

Iotti.
....

- PODIA SER O CONTRÁRIO...

O GÊNIO EXTERMINADOR E O PESADELO SINCROMÍSTICO


O gênio da América e do Brasil profundos não quer mais voltar para a garrafa

Por Wilson Ferreira

O atirador de Las Vegas; o vigia que ateou fogo em crianças numa creche em Minas Gerais; o ex-vereador que se passava como policial federal e produtor da TV Globo para extorquir e estuprar e, diz, ainda pretende ser presidente do Brasil para “acabar com a corrupção”. Lá nos EUA como aqui no Brasil o gênio foi tirado da garrafa para eleger um presidente e desestabilizar governos. A grande mídia cobre esses casos como eventos isolados, inexplicáveis, como “fatos diversos” da irracionalidade humana reforçado pelos indefectíveis “especialistas-informação-de-pauta” de plantão. Mas tanto lá como aqui são confirmações de que os pensamentos são coisas: formas-pensamento autônomas que dão ao “mal estar da civilização” (através da grande mídia em seus momentos de conflagração político-ideológica, oposição e guerra para desestabilização política)  uma narrativa, lógica e com sentido. Para o gênio sincromístico sair da garrafa e nunca mais querer voltar.

"Os pensamentos são coisas"
Antigo aforismo oriental

Eventos trágicos como o do atirador de Las Vegas, Stephen Paddock, que matou 58 e feriu quase 500; ou a inexplicável tragédia na qual um vigia de uma creche no norte de Minas Gerais jogou álcool em crianças e nele mesmo e ateou fogo para matar 10 crianças e deixar mais 23 feridos, sempre causam consternação e revolta pela crueldade inexplicável.

Porém, apesar da barbárie que sugere atos de pessoas enlouquecidas, foram ações aparentemente premeditadas de maneira fria e calculada.

Mas fica a percepção da irracionalidade, do inexplicável, da brutalidade aleatória onde, para tentar buscar alguma racionalização, a grande mídia coloca diante das câmeras os tradicionais especialistas-informação-de-pauta como psiquiatras, psicólogos, delegados e médicos forenses.

Isso quando não entram em cena teóricos da conspiração falando de algum projeto secreto de controle mental governamental (como o MK Ultra, p. Ex.) no qual um indivíduo preparado através de drogas ou traumas psíquicos teria a personalidade propositalmente fragmentada para comandos serem ativados por determinados sons, palavras ou ações.

Stephen Paddock, o atirador de Las Vegas

Armas e Fetiche


No caso norte-americano, é no mínimo espantoso o tom de “freak out” (apresentadores e comentaristas consternados e abalados) da grande mídia num país no qual a indústria do entretenimento fetichiza armas: as bebidas alcoólicas e cigarros podem ser extirpadas de filmes e séries (ou colocadas somente na boca dos vilões), mas as armas continuam em cena pela força do lobby da indústria armamentista.

Num país no qual a arma é um fenômeno eminentemente estético (a percepção de segurança e liberdade) – quanto mais velho o ator (ou o norte-americano comum), mais armas deve possuir para provar que ainda têm “munição” e de que a impotência se foi! Quanto mais velho, maior o arsenal bélico – sobre isso clique aqui.

O fascínio pelas armas nos EUA pode ser um fenômeno cultural - acredita-se que torna o país mais seguro, além da arma representar, no imaginário do norte-americano médio, a defesa do cidadão contra um possível governo totalitário. Porém, a indústria do entretenimento é o horizonte de eventos dessa cultura.

Assim como nos buracos negros, o horizonte de evento é o ponto de não-retorno no qual “os pensamentos viram coisas”: não conseguindo superar a velocidade escape, produtos de entretenimento tornam-se formas semi-autônomas através das energias psíquicas que atribuímos a eles. Estamos no campo da hipótese sincromística – através de um contínuo midiático atmosférico capaz de criar forma-pensamento no mundo ficcional (mas não ilusório) que em dadas circunstâncias (o vácuo mental de indivíduos que acreditam serem suas próprias ideais) podem entrar em contato com o mundo real (assassinatos seriais) – sobre isso veja os links no final da postagem.


Falso policial federal com crachá da Globo


No Brasil, dois eventos marcaram o noticiário recente, distantes no tempo e no gênero de notícia: o primeiro, uma trágica hard news; e o outro, um chamado “fato diverso” do noticiário policial, porém não menos sintomático. Exemplos dessa hipótese sincromística, dessa vez na densa atmosfera política e social na qual o Brasil está mergulhado.

(O crime decorrente de) suposta “doença mental com delírio persecutório” do vigia Damião dos Santos, que cometeu o bárbaro crime em Minas Gerais, foi coberto pela mídia corporativa como um episódio isolado, em algum lugar atrasado e pobre no interior do País. Mas nesse episódio podemos encontrar elementos sintomáticos com outro episódio que foi deslocado para a editoria das notícias policiais na imprensa.

Em São Paulo um homem se fazia passar por policial federal para estuprar e roubar mulheres no bairro nobre do Jardins, em São Paulo. Adson Muniz Santos, ex-vereador da cidade de Jussiape (Bahia), também apresentava um falso crachá de produtor da TV Globo.

O criminoso dizia ter “influência política” para resolver problemas das vítimas. Preso, diante das câmeras e na porta do camburão, fez uma mini coletiva para a imprensa cercado de microfones: “meu foco é chegar à presidência para acabar com a corrupção e por fim a tantas mortes no País...”, disse sério – diante da mídia, repetiu prontamente o script martelado diariamente pela TV e rádio.

É sintomático: as duas personagens que performava para sentir-se poderoso e acima de qualquer suspeita - policial federal e produtor da TV Globo – (fazem todo o) sentido após anos da dobradinha judiciário-grande mídia para desestabilizar os governos lulo-petistas.

O falso policial federal e produtor da Globo quer ser presidente para "acabar com a corrupção"

“Fatos diversos” sem contexto


O tratamento isolado como “fato diverso” dado pela grande mídia (sem dar o devido contexto) encobre que, desde o momento em que a meganhagem judiciária tomou diariamente conta das telas (forças tarefas federais, procuradores e delegados com ares graves e poderosos em coletivas, policiais federais armados até os dentes com touca ninja negra e com seus indefectíveis personagens saindo às ruas para conduções coercitivas – o “japonês da federal”, o hipster, o sarado, a “gata” loira etc.), o fenômeno foi acompanhado pela proliferação de pequenos escroques, criminosos e golpistas que parecem emular esse fascínio por poder, armas e coerção.

Por exemplo, no interior de SP bandidos criaram uma Operação Lava Jato fake se fazendo passar por juízes e procuradores para extorquir empresários com telefonemas ameaçando sobre supostas investigações que poderiam ser paradas caso fossem pagas propinas aos criminosos – clique aqui.

No início desse ano um falso policial federal com jaleco, carteira e distintivo foi preso em flagrante extorquindo vendedores ambulantes em São Paulo. Abordado por policiais militares ainda tentou dar uma “carteirada” para tentar intimidá-los – clique aqui.

Um homem de 41 anos foi preso pelos crimes de extorsão e estupro. Morador em condomínio em Itu/SP, era chamado pelos vizinhos de “doutor” – andava com fardas e dizia ser militar e que, recentemente, teria passado num concurso para juiz federal e aguardava ser chamado. Passando-se por policial federal dizia fazer “parte de um esquema” para dobrar os investimentos das vítimas – clique aqui.

Basta uma rápida pesquisa no Google, para perceber o rápido crescimento, nos últimos anos, de “fatos diversos” no noticiário sobre golpes de falsos policiais federais ou juízes.

O pesadelo sincromístico


Pequenos escroques e golpistas sempre existiram. Porém, parece que agora o fascínio da grande mídia pelo poder de coação e prisão de armas reluzentes empunhadas por policiais federais telegênicos mandados para as ruas pela canetada de juízes e procuradores fornece uma palpitante narrativa para esses criminosos cotidianos de uma espécie de Brasil Profundo.

Estupro não é uma questão de prazer ou de tesão, mas de poder – o prazer de dominar o outro (sadismo). Seja o estupro sexual ou financeiro – a extorsão. E a liturgia midiática diária do Poder com prisões, coerções, delações premiadas e transmissões ao vivo de juízes decidindo o futuro do País é o caldo cultural para incendiar a imaginação e preencher o “vácuo mental” de golpistas e doentes psíquicos.

Em seu perfil em uma rede social, o vigia incendiário da creche de Minas Gerais fez publicações sintomáticas que espelham a atmosfera pesada que a grande mídia criou para o País:   “tudo o que toca vira o que quiser” ou “tem gentes (sic) dando remédio escondido para padres ficarem com deprensão (sic) até eles associar (sic) ao mal depois deixa de dar que geração está esperando. Que país é esse?”.

Hoje o País e a mídia corporativa parecem colher os frutos produzidos por um gênio que não quer mais retornar para a garrafa. Desde que a mídia colocou diante das câmeras gente obscura e esquecida para engrossar as manifestações anti-Dilma (modelos anônimas nuas nas manifestações, acusados de estelionato e estupro organizando acampamento em frente a FIESP na Avenida Paulista, o procurador que vazou denúncias contra Lula envolvido em militância religiosa, cárcere privado e violência doméstica etc. – clique aqui), nada mais fez do que fornecer uma narrativa coerente para um Brasil Profundo psiquicamente doente.

Esquecidos pela História e civilização, encontraram uma tradução político-midiática para os seus demônios pessoais para poderem sair à luz do dia.

Assim como Trump deu voz à América profunda (aquela que vive em torno do fetiche das armas), no Brasil a grande mídia não consegue mais colocar o gênio de volta na garrafa, que agora arreganha os dentes para ela: em vídeo, o indefectível Alexandre Frota se limpa no banheiro com páginas da revista Veja cuja matéria de capa define Bolsonaro como “ameaça”.

E a Globo sofre pesados ataques em redes sociais e sites evangélicos depois de matéria no programa Fantástico sobre identidade de gênero e contra censura.


O gênio não volta


O “horizonte de eventos” do buraco negro midiático acabou criando um, por assim dizer, pesadelo sincromístico: assistimos indivíduos incorporando em série as verdadeiras formas-pensamento autônomas que atualmente povoam a pesada atmosfera nacional.

A expressão “incorporando” não quer dizer que as pessoas são simplesmente “possuídas” ou condicionadas de maneira behaviorista ou por algum truque subliminar midiático. As doenças psíquicas (o eterno “mal estar da civilização”, como Freud um dia destacou) sempre existiram desde que a humanidade saiu da Natureza e ingressou para o Simbólico. (Nota deste blog: "behaviorista"/Behaviorismo: teoria e método de investigação psicológica que procura examinar do modo mais objetivo o comportamento humano e dos animais, com ênfase nos fatos objetivos [estímulos e reações], sem fazer recurso à introspecção." - Wikipedia: AQUI).

Porém, seja pela indústria do entretenimento (para injetar “espontaneidade” aos seus produtos), seja pela grande mídia em seus momentos de conflagração político-ideológica (oposição e desestabilização políticas), esse “mal estar” sai do magma inconsciente para ganhar narrativa, lógica e sentido ideológico e político.

Agora é tarde. O gênio não quer mais voltar para a garrafa!  

-  (Fonte: Cinegnose - AQUI).

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